tão frio e tão belo

tão forte e tão perto (eua, 2011) ★★★☆☆

ninguém deve levar um fã a sério. afinal, a gente cresce, sofre e morre de estudar que é preciso afastar-se do objeto de análise para qualquer avaliação, digamos, menos afetada. mas foda-se a academia. ‘extremamente alto e incrivelmente perto’ é, de longe, meu livro preferido e ainda assim decidi comentar sobre sua adaptação pro cinema. dever de fã, questão de honra. não me julguem.

a história gira em torno de oskar schell, menino tímido que é encorajado a conversar com estranhos através de enigmas criados pelo pai, interpretado por tom hanks. depois que o pai morre no ataque às torres gêmeas, oskar encontra uma chave misteriosa dentro de um vaso da casa. acreditando ser o último mistério criado pelo pai, o garoto parte em busca da porta que a chave abrirá. sua única pista é um envelope com a palavra ‘black’.

dizer que o livro é melhor que o filme não é opinião minha, é regra. mesmo assim, ainda que muitas das vidas contadas e entrelaçadas nas páginas tenham sido enxugadas ou suprimidas para dar lugar apenas ao necessário na telona, tão forte e tão perto manteve-se fiel ao livro no que diz respeito à história. o premiado roteirista eric roth controlou o ego e não interferiu nas personagens – uma sábia decisão, já que qualquer tom acima, ou abaixo, poderia deixá-los piegas e caricatos.

infelizmente, a distribuidora brasileira não teve o mesmo bom senso ao adaptar o título do filme. ‘extremamente alto e incrivelmente perto’ foi mutilado para virar ‘tão forte e tão perto’, que parece nome de romance erótico vendido em banca. uma pena, pois um dos grandes trunfos no título do livro em português era a versatilidade que a palavra ‘alto’ trazia – quem fala a língua de camões entende mais de um sentido pro verbete: ‘alto’ pode se referir tanto a volume de som quanto a grandes altitudes. tudo a ver com a história, ruidosa e intensa, e alta e distante. no original, ‘extremely loud and incredibly close’, o significado ficava restrito à primeira definição.

voltando ao filme. em seu quarto trabalho, o diretor stephen daldry mostra que sabe o que faz. tão forte e tão perto é tecnicamente impecável, com todos os ingredientes para fazer do longa uma obra-prima. apesar de tanto apuro, ou talvez por causa dele, está a léguas de oferecer toda a originalidade e o frescor que o livro traz. na verdade, por vezes a mão do diretor chega a ser burocrática demais, pesada, austera, tornando a história previsível e o filme, quadrado. note, por exemplo, a fotografia sem grandes surpresas, a trilha sonora pontual e eficiente, os raccords clássicos. tudo polido, amarrado, justificado – e zzzzz.

o maior destaque do longa é mesmo seu protagonista vivido pelo ator thomas horn. o oskar do cinema mostra-se um poço de carisma e não cai na perigosa e irritante chatice comum a todas as crianças-prodígio. a exceção fica apenas pra inevitável canseira depois de toda aquela narração demasiadamente sussurrada para um garoto tão inquieto e curioso. e mesmo que todos falem, inclusive o oscar, sobre a atuação do veterano max von sydon como coadjuvante, acredite, não é nada de outro mundo.

tão forte e tão perto revela-se, afinal, nem tão forte nem tão perto quanto poderia (ou deveria?). o olhar perfeccionista ao extremo de seu diretor transformou a história num filme terno e bonito, mas também vazio e sem sentimento. um frankenstein construído de ótimos pedaços, no qual o coração bate apenas porque assim foi-lhe dito para fazê-lo. como a história nos conta, às vezes vê melhor quem fecha os olhos.

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