os universos de drive

drive (eua, 2011) ★★★★☆

estreia americana do dinamarquês nicolas winding refn, baseado no livro de james sallis, drive conta a história de um misterioso sujeito que, exímio motorista, presta serviços para bandidos sem se envolver com os crimes. durante o dia, trabalha como mecânico e dublê em filmes de ação. embora reservado e introspectivo, o protagonista se envolve com a vizinha e seu filho, porém qualquer plano se desfaz com volta do marido dela, que estava preso.

drive ganhou mais projeção e expectativa depois de receber o prêmio de melhor direção no último festival de cannes. ryan gosling interpreta o heroi de poucas palavras, mas o filme também traz grandes atores em papeis secundários. injustamente esquecido (ou desprezado) pelo oscar, drive apresenta uma particular riqueza de signos em inúmeros sentidos e vários universos, dentre os quais destaco:

o faroeste

assim como nos títulos de bangue-bangue (amo e odeio esse termo), a história se debruça sobre o mito do heroi solitário que age de acordo com princípios próprios e irrefutáveis. sempre disposto a proteger a donzela em perigo, o mocinho surge em seu cavalo (no caso, motorizado) para socorrê-la e é capaz de se anular sem pensar duas vezes em nome de um “bem maior”, sejam vidas inocentes ou suas convicções pessoais.

em drive, o “código de honra” do protagonista é tônica dominante, o verdadeiro personagem principal que move a trama. move e impede: em nome de seus princípios, o motorista se abstém do amor, do dinheiro e da vida social. o resultado é um sujeito frustrado que pouco fala, pouco sorri e quase nunca se mostra. aqui, a interpretação de gosling merece destaque: o ator encarna o personagem como uma figura icônica, mas não folclórica, cuja permanência na tela é quase fotográfica, como um quadro sem moldura em todas as cenas. note que mesmo quando não está em primeiro plano, a imagem do ator pode ser vista em reflexos, silhuetas ou disfarçada pelo canto como um padrão imagético. gosling também se mostra eficiente nos momentos em que precisa sair da zona de conforto do personagem: em determinada cena no elevador, por exemplo,  quando ele finalmente revela a irene seu lado violento, sua expressão muda sutilmente de serena para violenta para, por fim, uma desesperada agonia silenciosa.

além disso, uma das maiores referências ao faroeste em drive vem do fato de que o nome do heroi jamais é revelado. espécie de clint eastwood moderno, revisitado também por uma thurman no volume um de kill bill, o “pistoleiro sem nome”, apesar de pacífico, não foge da briga. é ainda autossuficiente, lacônico e vive à margem da lei, da mesma forma que o misterioso motorista de gosling.

o kitsch

drive é ousado ao apresentar uma série de características kitsch, usado aqui no sentido de “gosto duvidoso”, tendo o protagonista como principal exemplo desse universo. vestindo quase sempre  uma chamativa e cafona jaqueta dourada, o motorista parece usar um guarda-roupa oriundo da década de oitenta. e o que dizer do palito de dentes, à moda caubói, sempre à sua boca? gloria kalil chora.

mesmo os mundos paralelos da história, como a casa da vizinha ou o restaurante onde os vilões se encontram, são permeados por objetos antigos e ultrapassados, conferindo a esses ambientes uma aura desbotada, parada no tempo – ou simplesmente brega mesmo.

porém nenhum sinal do kitsch é tão óbvio quanto na fonte horrorosa utilizada nos créditos do filme. associada às formas mais amadoras de comunicação, ela surge num roxo pavoroso ao mostrar o título da película nos primeiros minutos. parece um desafio e uma provocação do diretor a olhares supostamente bem treinados. sendo bem cafona: um tapa na cara com luvas pelica.

o indie

drive é a adaptação de um livro de pulp fiction, tipo marginal e barato de publicação disponível em revistas de baixo orçamento. além da origem peculiar, o filme elenca artistas undergrounds em sua trilha sonora, além do compositor cliff martinez, conhecido por sua parceria com o diretor (outrora “alternativo”) steven soderbergh e por seu trabalho com a banda red hot chili peppers.

não é pouca coisa. drive, assim como seu protagonista, é um filme silencioso, quase contemplativo. em certos momentos, como no passeio de carro do motorista e sua vizinha, a música é essencial para que percebamos o que de fato está acontecendo entre seus personagens.

carey mulligan, no papel de irene, também tem todas chances de virar a nova musa do mundo indie, título que já foi atribuído a zooey deschanel, scarlett johansson e até marisa tomei. entre os próximos projetos da moça estão “o grande gatsby” adaptação pro cinema do livro de scott fitzgerald e o novo filme de spike jonze escrito por charlie kaufman, ainda sem título.

o fetiche

drive é, mais que qualquer coisa, uma experiência fetichista. além da beleza de seus atores, dos carros antigos e das sequências de ação, o filme se aproveita de outros elementos enraizados no senso comum para despertar desejo. dessa forma, somos provocados pela inocência da frágil mocinha, pela figura do mecânico galã, pela tentação do romance proibido, pela adrenalina da situação perigosa em que o heroi se encontra. tudo enquadrado por um jogo de mostra-esconde numa fotografia que remete aos filme noir.

não por acaso, “drive” em inglês também pode significar impulso. é através da pulsão, ou do controle dela, a decisão, que o diretor provoca o espectador e o convida ao fetiche. dessa forma, podemos pensar a violência do filme como um momento de catarse, em que o protagonista libera naquelas atitudes todo seu desejo reprimido. puxa “taxi driver” pela memória. seguindo esta linha de raciocínio, os assassinatos do filme podem ser representações de atos sexuais – ora intensos e explosivos (como na já citada cena do elevador – seria uma “rapidinha”?), ora sádicos e calculistas (como na morte na praia – seria um jogo de sedução?). e o que significaria gosling banhado de sangue, exibindo um discreto sorriso de satisfação, além da felicidade do gozo?

drive é, enfim, um filme sexual. que seja bom pra você.

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