solidão que nada

shame (eua, 2011) ★★★★☆

brandon sullivan é um caçador. em seu habitat, abate presas sexuais e se satisfaz com sites pornôs e prostitutas. apesar das inúmeras parceiras, vive sozinho. frio e metódico, cuida de todos os cômodos de seu território e, na maior demonstração de seu domínio sobre o espaço, anda sem roupa pelo apartamento. na verdade, como percebemos no decorrer da trama, brandon é a verdadeira presa. vítima de sua compulsão sexual, está sempre à procura do próximo orgasmo. incapaz de nutrir qualquer sentimento, mesmo pela irmã, ele é controlado pelo vício que o transforma num dependente de sexo.

toda essa obsessão fica clara numa das primeiras cenas de shame. no metrô, brandon encara uma desconhecida que corresponde à suposta paquera com sorrisos e gestos provocantes. o que a moça percebe depois, assim como os espectadores, é que ele não sorri de volta. seu olhar não é de flerte, mas de obsessão. para o protagonista, a mulher no metrô, ou qualquer outra pessoa, representa apenas uma forma de conseguir saciar seu vício – sexo. é esse comportamento doentio e auto-destrutivo, e a ausência de qualquer tipo de apego, que caracterizam o personagem magistralmente interpretado por michael fassbender.

assim como brandon, sua irmã sissi também é obsessiva. a diferença é que enquanto pra ele é impossível desenvolver sentimento, ela já não consegue se desapegar de seus relacionamentos fracassados. por isso, ao invadir o território do irmão, a moça também o força a encarar o doente que ele se tornou – e lembra-lhe de um passado conflituoso jamais revelado pelo filme. brandon não esboça qualquer forma de carinho com a irmã, porém se mostra incomodado ao vê-la envolvida com outros homens – talvez não por simples ciúmes, mas por enxergar diante de si o modo com que trata as outras mulheres. é quando a vergonha se torna constrangimento – e só a partir daí pode finalmente se transformar em culpa.

a relação dos irmãos, cuja tensão beira a sexual, é tempestuosa, mas também complementar: apenas eles podem se ajudar, e o terceiro ato da história é decisivo em revelar isso. é somente depois de uma atitude desesperada de sissi que o irmão, se não muda, parece ao menos tomar consciência de sua condição. o filme, sabiamente, é reticente nesse aspecto. em shame, os personagens foram engolidos por suas próprias obsessões. a única vez em que brandon não consegue um orgasmo é justamente quando demonstra interesse além do sexual. seu vício tornou-se um hábito e sua doença, crônica.

o diretor steve mcqueen pinta um retrato pessimista de um mundo onde não há comprometimento. brandon chega sempre atrasado ao trabalho, o chefe casado vive a procurar amantes, sissi pula de uma relação destrutiva pra outra. a fotografia fria, os planos fechados, os constantes close-ups, os silêncios constrangedores e a trilha sonora tensa complementam o desconforto e expõem a solidão geral. seriam os vícios nossos únicos companheiros de verdade?

  1. Leonardo Vasconcelos

    assim que ouvi falar a respeito do filme, me interessei! gostei também dos pontos que são levantados nessa crítica. só poderei comentar mais depois que assistir ao filme que, ainda não chegou à salvador!

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