o império do que falta

slovenian girl (eslovênia, alemanha, sérvia e croácia, 2009) ★★★☆☆

aleksandra tem vinte e poucos anos, pai protetor, melhor amiga, ex grudento e leva bomba na faculdade como qualquer um. é bonita, inteligente, veste-se bem e, desde que saiu do interior, trabalha por melhores condições na cidade grande – como qualquer um também. mas então aleksandra encontra a prostituição.

há toda uma escola de filmes de puta, porém o diretor damjan kozole abstrai julgamentos e não pinta sua protagonista de vítima, heroína ou pecadora. a personagem principal de slovenian girl não vive o romance de ‘pretty woman’ nem o inferno de ‘bruna surfistinha’ – tampouco sua atriz, nina ivanisin, lembra julia roberts ou deborah secco.

sem um grande clímax, mas com uma constante tensão em que segredos se amontoam como bolas de neve, acompanhamos a procura de aleksandra por pequenos prazeres que a tirem da entediante rotina e, principalmente, da trágica solidão. “todos nós estamos solitários, cada um do seu jeito”, diz em determinado momento. veja bem: juventude blasé, envelhecida e cansada não é novidade hipster. era esse o retrato dos jovens até o fim do século XVIII, quando a imagem sofrida do recém-lançado werther provocou uma onda de romance e suicídio. contudo, em época de crise financeira global, o que amolece o coração da moça é o poder de consumo – tanto que seus únicos momentos de alegria estão relacionados ao apartamento recém-comprado.

ao perceber que não há saída para a porta que abriu, aleksandra entra no jogo e se torna também dissimulada e manipuladora – ou será que sempre fora? -, usando a mesma falsa desculpa para conseguir o que deseja. uma das pistas visuais mais claras do egocentrismo da jovem é seu ritual ao acender o cigarro: de forma sensual, mas sistemática, ela dá uma lambinha antes de acendê-lo. a ênfase aqui é na fase oral, narcisista e infantil. o cigarro é tão importante para a trama que num dos momentos mais fortes, quando o pai recebe uma impactante notícia, nada é verbalizado – a gravidade da situação é representada numa cena em que ele tenta acender um cigarro ao contrário.

slovenian girl é uma dessas crônicas que nos aproximam de personagens fascinantes deixando os julgamentos por nossa conta. para aleksandra, “a vida é um grande desapontamento atrás do outro”. o filme, não.

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