corvo ou urubu

o corvo (eua, 2012) ★★☆☆☆

além de criar algumas das maiores e mais sombrias tramas da literatura policial, edgar allan poe foi um sujeito de personalidade conturbada e auto-destrutiva. seu fim, inclusive, assim como suas histórias, é ainda envolto de muito mistério: ele foi encontrado quase morto num banco de praça a repetir o mesmo nome até falecer alguns dias depois. uma premissa e tanto, vamos combinar. o propósito de o corvo é, então, contar o que aconteceu para que poe morresse daquela forma obtusa.

o mote dos sonhos, infelizmente, transforma-se numa colcha de retalhos clichês e referências batidas – com direito à vergonhosa frase “a esta altura, todos são suspeitos”. no filme, um assassino em série começa a agir usando como modelo os crimes descritos nos livros de poe. inicialmente um potencial suspeito, o escritor passa então a contribuir para solucionar o mistério, dando detalhes e esclarecendo pormenores de cada nova morte. a aproximação do autor com as investigações revela-se ainda mais inevitável depois que sua noiva é sequestrada pelo tal assassino.

edgar allan poe é apresentado como um indivíduo beberrão, arrogante e detestável, um escritor fadado à autossabotagem cuja última ocupação na vida é, enfim, escrever. por pura preguiça, inércia ou canastrice, john cusak parece simplesmente incorporar o sherlock holmes de robert downey jr. grande parte da culpa, é claro, vem do roteiro, que trata personagens como tábuas e usa ações como mero pretexto para derramar a esmo cenas dos livros de poe, mas que jamais contribuem para o desenvolvimento da história.

luke evans, por exemplo, convence no papel de investigador metódico e apático – por isso chega a ser constrangedora a forma como o personagem explode num surto passional nos dez minutos finais da película, e isso apenas para levar seu personagem a testemunhar a última morte. já alice eve, que vive a mocinha emily, lembra uma alinne moraes recém-saída da escola wolf maia de atores – e nisso ela é “auxiliada” pela fotografia em closes fechadíssimos de seu rosto.

o grande destaque fica por conta da trilha sonora, que sustenta praticamente todo o suspense do longa, conferindo-lhe tensão e pontuando momentos importantes da trama. de resto, o corvo pega carona na fama de edgar allan poe e sua obra, mas vomita, distorce e envergonha grandes clássicos desse incrível autor. não acompanhamos um filme de investigação, mas apenas perseguimos a luzinha de laser vermelho como inocentes filhotes de gatos.

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