jardim de horror

flores do oriente (china, 2011) ★★★★☆

de acordo com estimativas do tribunal militar internacional para o extremo oriente, cerca de 200 mil civis e prisioneiros de guerra foram assassinados durante a ocupação japonesa na china, no final de 1937. o pretexto seria eliminar apenas soldados chineses disfarçados de civis, mas a situação saiu do controle e o exército japonês saqueou, incendiou, estuprou e dizimou grande parte da população de nanquim, então capital da república da china. embora alguns historiadores enfatizem que o número de vítimas pode ser ainda maior que o divulgado, o japão não reconhece o massacre.

em flores do oriente, o cineasta chinês zhang yimou parece tomar as dores de seu país ao apresentar soldados japoneses desprovidos de qualquer emoção, e com o único objetivo de torturar e matar qualquer ser humano. a guerra, entretanto, funciona mais como um triste pano de fundo para juntar diferentes personagens, e é nesse contexto que cada um, à sua maneira, buscará a redenção.

o filme é narrado por shu, estudante de um convento que procura abrigo, juntamente com suas amigas, numa antiga igreja que resiste ao verdadeiro inferno o qual a cidade se transformou. christian bale vive john, agente funerário americano que visita o lugar para buscar o corpo de um falecido padre. john se mostra insensível a tudo o que presencia e, na falta de pagamento pelos seus serviços, decide usar os recursos disponíveis por ali mesmo, como cama e vinho.

pouco depois, é a vez de um grupo de prostitutas procurar refúgio na igreja. trava-se, então, um novo conflito, interno, menor, mas intenso, entre as estudantes e as mulheres da vida. a animosidade dura até que soldados japoneses invadem a igreja e elas precisam se unir. surpreendentemente, john se disfarça de padre para proteger as garotas e acobertar as mulheres.

como outros títulos de yimou, flores do oriente apresenta um visual espetacular. o slow motion é usado constantemente, mas nunca à toa. as cenas de batalha são magistralmente coreografadas, assim como há plasticidade em todos os detalhes, mesmo banais – em especial o vidro da janela colorida sendo estilhaçado. é através do vitral, aliás, que as meninas observam a chegada das prostitutas à igreja. a importância desse fato é representada visualmente pela explosão de cores que surgem na tela. se até então a fotografia era predomínio de cores sombrias, tristes e dessaturadas, vemos de repente o oposto tomar conta do quadro.

como uma espécie de pororoca de personalidades, os refugiados vão se adaptando e se misturando entre si. o tempo, o medo e a necessidade fazem com que alguns revelem mais de si, compondo os verdadeiros protagonistas da história. e mesmo que a mudança de john pareça rápida demais, ela é explicada posteriormente de forma satisfatória.

mesmo tendo numa igreja abandonada seu principal cenário, flores do oriente não cai na armadilha do cansaço – pelo contrário: a sensação de claustrofobia ajuda a criar o clima de isolamento e vulnerabilidade de quem enfrenta a situação. uma amostra modesta do horror que inspirou o filme, mas uma experiência rica e fascinante de uma história que até hoje reverbera na memória da maior população mundial.

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