belgian pie

hasta la vista – venha como você é (bélgica, 2011) ★★★☆☆

um dos momentos mais pertubadores no filme ‘clube da luta’ não tem nada a ver com socos e sangue: é quando uma paciente de câncer terminal, num corajoso discurso sobre a doença, assume seu desejo sexual e clama que alguém a ajude a satisfazê-lo. rapidamente, a senhora é retirada do palco enquanto a platéia, silenciosa, reage numa pena constrangida. hasta la vista – venha como você é seria uma espécie de versão extendida dessa cena.

seria. corajosamente, o longa foge de convenções e revela-se uma grata surpresa sob diversos aspectos. na história, três jovens amigos decidem viajar sozinhos com um objetivo claro: perder a virgindade num bordel. o propósito cômico muda de perspectiva quando a gente descobre que um deles é tetraplégico, outro, cego e o terceiro, paraplégico devido a um câncer agressivo. dependes dos pais para tudo, eles contratam o serviço de uma motorista os guie pela rota do vinho (trajeto usado como desculpa para justificar a jornada aos parentes).

focando na relação que os amigos têm com a família, e posteriormente com a motorista, o filme traça um retrato delicado sem jamais apelar ao pieguismo ou à caricatura. de forma natural, o dia-a-dia dos amigos é retratado sem julgamentos, revelando semelhanças – e diferenças, claro – com o de qualquer outro jovem do planeta. nada disso seria possível sem o amparo de boas interpretações, o que não é problema para hasta la vista – venha como você é. é perfeitamente compreensível, durante a exibição, questionar-se se os atores têm mesmo aquelas deficiências ou não – o que, para deleite dos curiosos, é revelado numa cena de dez segundos na segunda metade da película.

outro grande pilar da história é a motorista claude. com cara de poucos amigos, ela surge como um obstáculo à diversão que o grupo almeja, mas acaba por se tornar a grande protetora de todos – tendo ela também sua própria deficiência: a “deficiência afetiva”. claude é responsável ainda por outro sutil contraponto do filme: ela, imigrante de origem humilde e passado sombrio, exacerba durante a viagem o contraste com philip, o tetraplégico, adolescente mimado para quem o dinheiro não parece ser qualquer problema.

oscilando entre o belo inesperado, como o elegante raccord que muda a pessoa que dá vinho a philip, ao desnecessário clichê, como a declaração revelada do personagem cego, hasta la vista – venha como você é consegue manter uma singela constante durante a maior parte. de humor sensível e tocante, traz personagens cujo mal-estar existencial os leva a atitudes extremas. assim como nas melhores viagens, o trajeto torna-se mais importante que o destino.

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