o rato que ruge

febre do rato (brasil, 2012) ★★★☆☆

o terceiro longa do cineasta cláudio assis é também sua melhor obra. o filme acompanha os passos de zizo, um agitador cultural conhecido por suas poesias e intervenções artísticas. o poeta e seus amigos levam uma vida simples, com pouco luxo mas muita luxúria – vivem num mundo de amor livre onde ficar alto e fazer sexo são expressões maiores de uma existência voltada à transgressão. ainda que essa vivência utópica pareça datada e cafona, ela incomoda, na trama, autoridades moralistas que tentam dar fim à arte de zizo.

adepto do cinema de choque , o diretor não vacila em expor a nudez de seus personagens como arma de guerrilha. uma de suas grandes qualidades é conseguir extrair, na maior parte das vezes, beleza de cenas grotescas. é claro que a fotografia em preto e branco de walter carvalho ajuda, com incríveis ângulos captados de cima, no qual observamos o que acontece de uma posição quase onipresente, como se acompanhássemos um experimento científico. trata-se, enfim, de uma grande entrega dos atores e, claro, do público também.

problema recorrente dos outros títulos de cláudio assis, aqui o texto muito literário não parece forçado por mostrar uma comunidade artística. é, portanto, natural que o poeta cuspa frases de efeito para qualquer ocasião, seja conquistar uma mulher ou tomar uma cachaça. infelizmente, mesmo com todo o carisma e o talento de irandhir santos, o desgaste é inevitável na segunda metade do filme, causado pela repetição de zizo. assim, quando o personagem avisa que fez um novo poema, é compreensível que a platéia se contorça de tédio.

contudo, o maior defeito de febre do gato é mesmo o roteiro. vejamos, por exemplo, a construção do protagonista zizo: cercado de amigos, o poeta vive aparentemente sem problemas – espalha sua arte pela cidade, faz sexo com idosas, um de seus grandes fetiches, e, mesmo sem fonte de renda clara, aparece quase sempre bebendo, mas tem casa própria onde produz seu periódico  – que dá nome ao título do filme. assim, quando o principal conflito de seu personagem surge, uma paixão não-correspondida, é quase impossível levar a sério suas intenções, visto que o novo sentimento nasce de forma tão brusca e aleatória que mais parece uma birra. da mesma forma que aparece, a tal paixão some e volta no final apenas para justificar uma cena. assim como zizo, os outros personagens lembram meros estereótipos de tipos malditos.

a própria trama também sofre. durante a exibição, acompanhamos o poeta espalhar sua arte libertária sem problema algum. ele cola cartazes, discursa na rua, picha muros e distribui panfletos sem nunca ser abordado por nenhuma autoridade. apenas no final do filme, a polícia surge para interromper o que seria maior ato de zizo: com seus amigos, ele fica pelado durante a passeata do dia da independência – o principal motivo, entretanto, não fica claro: eles querem reinvindicar o quê? (e é curioso que febre do rato, filmado em 2010, venha à tona agora quando se discute o uso da nudez em protestos pelo mundo afora). uma suposta desavença antiga com policiais é justificada através de um simples chamado: “ano passado, todos fomos presos. este ano, todos iremos para o hospício”. da mesma forma simplória, os algozes de zizo são mostrados apenas como repressores da arte, nunca como defensores da ordem – mesmo que ficar nu na rua seja crime previsto em lei.

impecável na técnica, mas com uma história ainda falha, febre do rato mostra, de fato, uma evolução na obra naturalista de cláudio assis. o diretor, assim como karim aïnouz, representa um cinema autoral necessário ao brasil, um passo à frente na busca de uma possível identidade da indústria nacional – sem ranços de outras escolas cinematográficas, fora do eixo rio-sp, sem interferência da rede globo. contudo, quando a necessidade de chocar fala mais alto que o desenvolvimento da narrativa, o discurso fica vazio, infantil, repetitivo e, assim como os poemas de zizo, maçante.

  1. Roberto

    Maçante é o seu texto. Febre do Rato – inclusive com toda aquela verborragia (necessária) – é pulsante.

  2. Pingback: o cinema brasileiro é machista? | helloimjackson

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