chacina verbal

deus da carnificina (eua, 2011) ★★★★☆

quando uma criança agride uma outra de sua escola, seus pais se reúnem para discutir que atitudes tomar. é uma questão de tempo, contudo, para que as diferenças entre eles se manifestem e a situação saia do controle. deus da carnificina, baseado na peça homônima de yasmina reza, que também contribuiu na adaptação do roteiro, apóia-se na (ótima) interpretação de seus atores e no texto irônico que, mesmo em explosões verborrágicas, ajuda a definir melhor cada um dos personagens.

formado por dois casais de origens e hábitos completamente opostos, o debate acaba revelando o que há de mais mesquinho em cada um dos adultos. penelope e charlie formam o par humilde, porém orgulhoso. enquanto ela é uma escritora preocupada com a situação da áfrica, ele vive de vender peças hidráulicas. por outro lado, alan e nancy representam um casal rico cujo tempo parece ser sempre escasso – ele é advogado e ela, corretora. adeptos de um comportamento polido e educado, todos acabam se descontrolando depois que um deles passa mal.

personagem incidental da trama, o celular de alan toca o tempo todo, revelando o caráter duvidoso do advogado e o abismo existente entre ele e sua mulher. as insistentes ligações revelam-se ainda mais um fator de pressão psicológica, causando mais desconforto aos presentes.

se por um lado existe a limitação de cenário, já que o filme se passa quase inteiramente numa sala de estar, por outro há a eficiência de polanski em transformar o enfadonho em proveitoso: o diretor abusa dos planos em que dois personagens aparecem enquadrados, mas alterna a profundidade de campo de acordo com a relação entre eles. além disso, a claustrofobia inerente do confinamento ganha a ajuda de elementos que tornam a situação ainda mais angustiante. no segundo ato, por exemplo, quando personagens usam o banheiro da casa, o que poderia ser um respiro se torna um sufoco, já que eles precisam se contorcer pra caber no pouco espaço. já no final, quando a politicamente correta penelope discute com seu marido, a atriz é mostrada de um ângulo visto do chão, dando um aspecto assustador à moralista e revelando o teto da casa, que parece então deixar o lugar ainda menor.

mais que levantar qualquer bandeira ou passar alguma lição de moral, deus da carnificina apenas expõe que são as diferenças que nos fazem mais parecidos – e que, afinal, nosso comportamento adulto pode ser bem mais infantil que o de nossas crianças.

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