aquém da finalidade

além da liberdade (frança, reino unido, 2011) ★★☆☆☆

famoso por suas corajosas heroínas, leia-se nikita, leeloo e joana d’arc, o francês luc besson volta à direção com uma história real sobre a ganhadora do prêmio nobel da paz, em 1991, aung suu kyi. além da liberdade traz a luta pela democratização da birmânia, atual mianmar, como contexto de uma trama cujos desdobramentos ainda podem ser acompanhados de perto. no filme, depois de perder o pai, líder popular e heroi nacional, assassinado pela ditadura, suu kyi vai morar na inglaterra ainda criança. já adulta, casada e mãe de dois filhos, precisa voltar à terra natal para acompanhar o que podem ser os últimos momentos de sua mãe. o que deveria ser uma breve viagem se torna um longa jornada quando, tocada pela situação em que seu país se encontra nas mãos da mesma ditadura que matou seu pai, ela decide permanecer na birmânia e fundar a liga nacional pela democracia. a escolha custou caro à suu kyi, que ficou confinada em prisão domiciliar por quinze anos e ficou impedida de ver seus filhos ou seu marido.

além do mérito de tornar mais conhecida a história de uma das maiores líderes de nossa época, o filme tem como grande trunfo a atuação memorável de michelle yeoh na pele da líder pacífica. fisicamente parecida com a personagem real, ela apresenta uma interpretação contida, mas intensa. o resto do elenco não fica muito atrás em excelência, com destaque para david thewlis, que interpreta o marido da protagonista, michael aris, e também seu irmão gêmeo. uma pena que os pontos positivos não vão muito além.

logo a película se transforma numa grande novela mexicana e a luta pela democracia perde espaço para o drama da separação com a família. não que essa parte da história não devesse ser contada, muito pelo contrário: talvez seja a escolha mais dolorosa de suu kyi durante toda a vida. contudo, encher linguiça com um looping interminável de ligações e choro deixa a história mais fraca e chata. no final, a impressão é a de que há uma gigantesca barriga nas mais de duas horas de projeção. além, claro, da introdução completamente dispensável, que mais aborrece do que comove – e abusa do efeito cafona de slow motion.

o que também contribui pra deixar o discurso político mais aguado é a caricatura da ditadura pintada por besson. ora supersticiosa, tomando decisões baseadas no conselho de videntes, ora estúpida, a ponto de nem mesmo saber o que é música, o vilão do filme é um retrato maniqueísta e simplório de uma entidade que realmente existe e abusa de sua inteligência perversa para se manter no poder. chega a ser ingênuo acreditar que a ditadura se valeu apenas da força bruta para dominar por tanto tempo aquele país.

com sua luta pacífica e ideológica, suu kyi entrou para história não apenas de mianmar, mas do mundo todo. agora sua cinebiografia corre o risco de ficar restrita à prateleira empoeirada de dramas por causa do delírio hollywoodiano de seu realizador. uma vida sofrida de verdade.

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