casamento blindado

um divã para dois (eua, 2012) ★★★☆☆

numa das muitas tirinhas geniais do andré dahmer, um sujeito carrega a mulher nos braços enquanto surfa numa onda perigosa. a moça, em pose ensaiada de balé, mas de cara amarrada, somente pensa “termina logo, roberto”. o título entrega a ironia da cena: “a rotina destrói tudo”. é nesse universo de tédio que vive o casal kay e arnold. depois de 31 anos juntos, o trator do dia-a-dia os transformou em estranhos e reduziu a convivência a gestos repetidos metodicamente à exaustão. a distância afetiva acabou se tornando física depois que eles passaram a dormir em quartos separados. kay é a primeira a sentir que há algo errado e, procurando salvar seu casamento, busca ajuda do dr. feld, um terapeuta de casais cujo tratamento é realizado numa pequena cidade afastada de tudo. o marido, embora relutante, acaba cedendo e viaja com a mulher para uma semana de terapia.

voltado para um público mais maduro, um divã para dois acontece devagar, sem um grande clímax. a preocupação do diretor em escolher o tom certo revela-se na ausência de piadas fáceis ou gags visuais – um exemplo de bom gosto pode ser percebido em determinado momento que kay sai pra beber: qualquer outro diretor menos preocupado com a qualidade não hesitaria em incluir uma cena em que a personagem, trôpega, passaria algum vexame para arrancar risadas da audiência. felizmente, david frankel, de ‘o diabo veste prada’, não cai nessa armadilha. a fotografia de tons suaves é conservadora, sem cair no piegas, e o design de produção prioriza objetos e cenários sempre em harmonia – note que mesmo o consultório escuro do dr. feld parece aconchegante.

embora a história pareça às vezes entrar num looping (casal briga, vai pra terapia, faz as pazes, briga, terapia, pazes), não chega a cansar – principalmente por mérito de seus atores. steve carrel, extremamente contido no papel do terapeuta, dá espaço para os veteranos brilharem – o que nos faz imaginar que seu nome foi incluído ao projeto apenas pra deixar claro que o filme é uma comédia. meryl streep deixa sua kay sofrida sem parecer coitadinha, embora às vezes abuse de afetação (preste atenção aos olhos piscando e à mão levada à boca o tempo todo). já tommy lee jones transforma um personagem que tinha tudo pra ser odiado na principal atração do longa. seu ranzinza arnold é a grande fonte de risadas da produção.

apesar da trilha sonora óbvia, que mais parece explicar o que os personagens estão sentindo do que apenas sugerir, um divã para dois foge dos estereótipos das comédias americanas por trazer conflitos reais e, digamos, íntimos demais. apesar de mirar num público mais velho, é interessante pra todos que tem/tiveram/terão relacionamento. a rotina, afinal, invade a casa cada vez mais cedo. e destrói tudo.

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