ceci n’est pas rock’n’roll

rock of ages (eua, 2012) ★☆☆☆☆

sherrie é uma moça do interior em busca do sonho americano em hollywood. por um milagre divino, vulgo preguiça dos roteiristas, em menos de cinco minutos na capital do cinema, ela consegue emprego no bar mais importante da cidade e, de quebra, conhece o grande amor de sua vida (que usa mais delineador que ela). rapidamente, com direito a muitas cenas felizes, sherrie vive seu romance como se tivesse idade mental de catorze anos. a felicidade da moça acaba quando um mal entendido, que poderia ter sido desfeito com duas frases, separa os pombinhos. a partir daí acompanhamos a busca individual de cada um pela felicidade, também chamada no longa de estrelato, fama ou carreira – não a de pó, pois as drogas jamais são citadas na película – no máximo, sugeridas, e sempre de forma cômica pra não chocar a audiência. não à toa, a cena mais quente tem todo um tempero lúdico e, veja só, nem chega ao “finalmente”. yeah, sexo, drogas e rock’n’roll! mas calma lá.

com uma seleção musical irregular, a trilha do filme é formada por versões rasteiras de sucessos dos anos 80 cantadas por garotas de entonação ora gospel, ora country, ora pop e garotos com voz de boy bands. o ponto alto de rock of ages é ver grandes atores saírem de seus papeis habituais. tom cruise como stacee jaxx interpreta uma versão limpinha da mistura de jon bon jovi com axl rose. já catherine zeta-jones, como fizera em “chicago”, rouba toda a atenção ao colocar seus dois quilômetros de pernas pra dançar.

infelizmente, nem o esforço dos atores os salva de papeis medíocres. é risível a trama que tenta nos convencer da paixão arrebatadora de jaxx por uma repórter surgida em cinco minutos de entrevista. já a história de patricia whitmore, personagem de zeta-jones, é a mais frustrante de todas: por todo o filme, ela luta pela destruição do bar que, segundo seu discurso, abriga a imoralidade da cidade. o conflito, porém, é absurdo, já que não há confusão, drogas, sexo, subversão, nada de rock no tal lugar. também é interessante notar como a atriz aqui parece encarnar kathleen turner em “mamãe é de morte”, das roupas ao tom de voz.

a montagem de videoclipe é eficiente nos números musicais, mas começa a desgastar quando as canções ficam mais constantes. além disso, em cenas normais, a montagem é simplesmente desastrosa, a ponto de erros de continuidade pipocarem a cada dois minutos de exibição. a impressão é que o diretor (mirando no baz luhrmann talvez?) quis mostrar seu trabalho em cada cena, alterando ângulos e pontos de vista, fazendo gracinha, procurando se fazer presente em todo quadro. contudo, pesou a mão e deixou a obra com cara de epilepsia. isso pra não falar das pontas soltas, como a eleição de mike whitmore que nunca acontece (e quem seria seu adversário?), o medo de palco de drew que some misteriosamente, o destino do empresário picareta etc.

o rock’n’roll está há anos-luz de ser apenas um estilo musical. mais que isso, é também um padrão de comportamento regido por atitudes, assim como o som, explosivas e inovadoras. império do paradoxo, o rock é a harmonia do inconstante, do inconformado, da inquietude. é o equilíbrio desequilibrado no casamento de ética e estética. você não gosta, não canta, não ouve, não compra – você é rock. ou não, como é o caso de rock of ages.

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