a todo volume

O Som Ao Redor

o som ao redor (brasil, 2012) ★★★☆☆

sem usar máscara, apelar pra caricatura ou cair no discurso demagógico, kléber mendonça filho apresenta um retrato fiel e rico da muito falada, mas pouco compreendida, classe média brasileira. utilizando locações reais do recife para simular o naturalismo extremo, o diretor aproveita os recursos de som para nortear, de forma sutil, o que aparece na tela – inteligente e irônico, ele expõe como nos deixamos levar fácil pelas aparências quando não percebemos o intenso barulho do silêncio à nossa volta.

na rua recortada do filme, vemos tipos que ajudam a contar, ou a confundir, os contornos da recém-emergida classe: do velho proprietário de imóveis à dona de casa que acabou de comprar sua primeira tevê de tela plana; do jovem que morou na europa ao filho da empregada que trabalha de madrugada. nesse contexto, todas as personas são definidas, a priori, pelo seu poder de consumo. assim, numa comunidade em que se é o que se tem, não é de se estranhar que cada um pense apenas em si mesmo. não há unidade ou cooperação, respeito ou  empatia. há diferenças, peculiaridades e sonhos individuais.

cada personagem busca, a seu modo, um jeito de driblar a mediocridade: o jovem casal namora escondido, o mauricinho rouba carros, o porteiro dorme. mas é a dona de casa do longa, contudo, quem melhor retrata essa necessidade de fuga do cotidiano: seus eletrodomésticos, “bens de consumo”, tornam-se extensões de seus desejos. para sentir prazer, ela usa a máquina de lavar; para fumar, o aspirador; para dormir, o controlador de latidos.

o abismo entre aqueles que dividem o mesmo espaço denuncia ainda uma sociedade construída na base do autoritarismo. todo mundo sabe: “quem pode, manda. quem não pode, obedece”. versão moderna dos senhores de engenho, os ricos até hoje temem que a favela invada a casa grande – pavor representado numa das cenas mais tensas da obra. crentes de que a violência se restringe apenas à delinquência, moradores se protegem, e se isolam, atrás de cercas e muros altos. a segurança se torna um bem comprável, exclusivo e excludente, por isso não é à toa que o som ao redor se divide em três capítulos sobre esse tipo de serviço: cães de guarda, seguranças particulares e guarda-costas.

mesmo que se perca no ritmo em alguns momentos, o som ao redor retoma as pontas soltas para se concluir surreal e alegórico. é como se o próprio filme também precisasse de um escape da realidade. trata-se de um registro elegante e próximo do que acontece agora, aqui, aí, em qualquer rua do brasil. basta parar pra ouvir.

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