ela é do tempo do bob

minhamae

minha mãe é uma peça – o filme (brasil, 2013) ★★★☆☆

não é preciso ser gênio para sacar que a equação peça de sucesso + comediante em voga + globo filmes só podia resultar num fenômeno de bilheteria. taí os mais de quatro milhões de espectadores que não me deixam mentir. grande parte do mérito de minha mãe é uma peça – o filme, contudo, sejamos justos, vem do talento ~ e da tranquilidade ~ do ator paulo gustavo em encarnar dona hermínia, uma versão mais histérica e caricata de sua própria genitora.

à vontade no papel, depois de vivê-lo por mais de cinco anos no teatro, gustavo consegue transformar um clichê cansado e irritante numa personagem que, exatamente por tentar não sê-lo, revela-se um poço de carisma. adaptado do texto escrito pelo próprio ator, o roteiro aponta, descaradamente, todos holofotes para a protagonista, que leva o filme no bolso. estridente, consegue arrancar graça mesmo ao cair no lugar-comum das frases de mãe (“esqueceria a cabeça se não tivesse grudada no corpo”…).

apesar de apresentar o filho gay apenas como mais um estereótipo, numa cena pouco inspirada e completamente desnecessária (que, conforme acompanhamos, não retrata em nada o comportamento posterior do personagem), é a filha gordinha quem mais apanha da história. além de ouvir toda a sorte de ofensas (ao contrário do homossexual que, diferente da vida real, nunca é xingado diretamente), ela ainda carrega o fardo de ser a vilã que causa a partida de dona hermínia. outras mocréias do filme, como a madrasta e a síndica, surgem inofensivas perto do gênio autoritário e intempestivo da robusta rebenta.

o caprichado design de produção é eficiente ao criar ambientes internos, como a casa da família, cafona e aconchegante, mas perde força pela fórmula televisiva com que é filmado. oriunda da tevê também é a enxurrada de flashbacks desconexos que parecem esquetes de um programa humorístico. ainda que alguns deles tentem dar peso à trama, o resultado é raso e o timing, inexistente (depois do acontecimento mais trágico do filme, por exemplo, uma personagem já puxa a história de volta à comédia, jogando no lixo o momento de reflexão proposto).

mas minha mãe é uma peça – o filme não quer levantar nenhuma bandeira (ainda bem!). seu discurso de moral se resume ao chocho “trate bem a sua mãe” ou algo do tipo. ainda que seu desfecho levante claramente a possibilidade de uma sequência, a melhor surpresa emerge durante os créditos finais: um vídeo amador delicioso da mãe que inspirou a personagem-tema. desbocada como dona hermínia, ela discute, corre, ri, xinga e manda o filho pra puta que pariu. isso a globo não mostra.

Um Comentário

  1. Pingback: papai sabe tudo | helloimjackson

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s