purpurina antiga

hifi

são paulo em hi-fi (brasil, 2013) ★★★★☆

se o rio é a maior representação do dia, são paulo é o grande expoente da noite brasileira. da gastronomia chique ao churrasquinho grego, do clube de grã-fino ao forró no bar da esquina, a noite paulistana é ampla e plural como poucas no mundo. tanta diversidade acabou influenciando e inspirando inúmeras manifestações que ajudaram a moldar grande parte da cena cultural do país.

um dos maiores responsáveis, senão o maior, pelo aspecto inovador da diversão noturna de são paulo é a cena gay. transgressora por natureza, a noite colorida tenta o tempo todo se recriar, seja para se adaptar a leis cada vez mais duras, seja para fugir ou peitar o preconceito, seja para se manter num mercado instável e cruel. superar-se, nesse meio, é uma questão de sobrevivência.

depois de documentar a quantas anda a atual noite gay de sampa, em a volta da pauliceia desvairada, o cineasta lufe steffen traça um flashback da mesma cena em são paulo em hi-fi, em cartaz no festival mix brasil. o passeio, cheio de nostalgia, passa rapidinho pelos 60’s e se demora nas décadas de 70 e 80, terminando no comecinho dos anos noventa. no filme, protagonistas e público daquelas épocas falam sobre clubes, casos e personas que se destacaram na construção da identidade lgbt de quando o sol se põe por trás dos prédios na selva de pedra.

recheados por um rico material de arquivo, os depoimentos ganham vida e brilho. o diretor também é feliz em destacar, no pouco tempo disponível, os principais traços de personalidade de cada narrador – assim, percebemos claramente o viés com que cada um relembra os acontecimentos: joão silvério trevisan, por exemplo, tende a ser analítico, leão lobo fala de tudo com deslumbre e kaká di polly, bem, é puro surrealismo. as histórias hilárias selecionadas também mantém o ritmo do longa sem cair na chatice.

apesar do tema completamente irreverente, a estrutura do doc segue uma forma bem quadradinha, quase careta – por isso fica confuso quando os vídeos deixam de representar o momento cronológico para fazer parte semanticamente da história. além disso, a ausência de créditos no começo, apesar de fazer as pessoas focarem nas histórias, acaba tirando um bocado do peso de alguns depoimentos.

apesar do tom leve, o filme não passa batido por assuntos mais sérios, como a repressão policial, o surgimento da aids e o plano collor – tudo sem pieguimos ou melindres. trata-se de um recorte completo e bastante vivo de uma época que, segundo seus personagens, encontra-se morta e enterrada. são paulo em hi-fi é um valioso documento histórico da cultura nacional – afinal, a arte também se acaba de dançar na pista.

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