vazio é apelido

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vazio coração (brasil, 2013) ★★☆☆☆

em determinado momento de vazio coração, o embaixador mário menezes acusa seu filho de usar a morte da mãe como matéria-prima de suas canções populares. “você banalizou seu sentimento”, acusa o magoado pai. em quase duas horas de projeção, é só isso o que o filme faz. vazio coração tenta espremer até a última gota de melodrama barato em nome de uma tragédia mal contada.

o longa de alberto araújo conta a história do astro da música hugo kari que, prestes a casar, volta às origens para tentar se reconciliar com o pai, o rígido embaixador mário. além de culpar hugo pela morte da mãe, o patriarca não concorda com a carreira de cantor do filho – que deveria, na opinião do embaixador, ter sido poeta. as discussões pontuam toda a obra e, entre uma briga e outra, números musicais do protagonista são apresentados.

de cara, vazio coração se mostra confuso sobre a sua estrutura temporal. começando com uma espécie de videoclipe para apresentar o personagem principal, ele joga o espectador dois anos antes para desenrolar os fatos que levaram o cantor até aquele palco. o problema é que o tempo percorrido no filme não passa de alguns dias – e mesmo que, ao longo da história, comente-se que já se passou “uma semana”, a impressão é a de que tudo se resolveu muito mais rápido que isso.

o roteiro, escrito pelo diretor, também não mostra a que veio. não existe motivo real, além, talvez, do questionamento moral, para que hugo insista tanto em se entender com o pai apenas dois anos depois do rompimento. nenhuma carreira, casamento ou vida está em jogo, por isso tanta determinação do filho torna-se, naturalmente, pentelhice para quem assiste.

pior que isso: a precariedade do roteiro expõe as limitações de seus atores principais. murilo rosa, como estrela atormentada, virou a versão masculina de bella swan. oscar magrini, como empresário, está mais para sambarilove da escolinha. larissa maciel interpreta uma samambaia. mesmo lima duarte, em toda sua grandeza, não consegue fugir da pobreza de seu papel – numa de suas cenas tristes, é constrangedor o esforço que o ator faz para tentar exprimir um choro convincente.

quem domina as cenas é othon bastos, alternando de figura rabugenta a velho sábio. com poucos cacoetes e muita dedicação, ele leva o filme com tranquilidade na palma da mão. o elenco de apoio também dá um show nos galãs, com destaque para o grande vantoen pereira, na pele do amigo do embaixador, e mallú moraes, como secretária.

a fotografia, de luis abramo, embora peque pelo plano de novela ao retratar personagens, é responsável por tornar o filme visualmente interessante com composições belíssimas, como a primeira cena nas ruínas ou aquela em que o embaixador joga xadrez sozinho. a montagem, de sérgio mekler, quito ribeiro e frederico mendes é outro trunfo do longa, dando vida a momentos mais monótonos como as conversas via skype e trazendo tensão para os embates entre pai e filho. apesar de, corajosamente, apresentar várias sequências com câmera no ombro, é uma pena que o diretor inclua tantas firulas desnecessárias, como a cena de hugo vendo os porta-retratos, cantando na frente do lago ou olhando pra cima no saguão do hotel.

marcado por canções do protagonista, na voz do próprio murilo rosa, a trilha é previsível e um tanto pedante (o que pensar de versos como “o tempo é um menino esperto que brinca de pique-esconde no deserto”?). cheio de soluções fáceis e até absurdas, como montar um show de um dia pro outro, vazio coração preenche o seu peito: de tédio.

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