o êxodo cinematográfico

cineholliudy

cine holliúdy (brasil, 2013) ★★★☆☆

na década de setenta, o avanço da televisão ameaçava principalmente os cinemas das pequenas cidades. o hábito de sair à noite para a sala escura dava lugar ao reinado soberano da telinha na sala de estar. é nesse contexto que cine holliúdy se desenrola. de humor ora inocente, ora picante, o filme traz os principais tipos do cotidiano cearense numa saga cheia de molecagem. com uma estratégia de marketing inovadora, o longa demorou a estrear nas principais praças do país, chegando acompanhado de buzz e grandes números: quase 500 mil espectadores e r$ 4,5 milhões arrecadados (custou um milhão), que devem aumentar com o lançamento pelo sudeste.

além de todo o leruaite (o filme é falado em cearensês, mas se você não é fluente não se preocupe: ele tem legendas), cine holliúdy nos leva a pensar sobre a fragilidade do cinema no brasil. segundo dados da agência nacional do cinema (ancine), há cerca de 2.200 salas de exibição em atividade no país. podia ser melhor: em 1975, havia 3.300 salas em território nacional. podia ser pior: depois da metade dos 70s, com a urbanização acelerada, a falta de investimentos em infraestrutura urbana, a baixa capitalização das empresas exibidoras, as mudanças tecnológicas, entre outros fatores (ainda que o filme concentre a culpa na tevê), o número de cinemas caiu vertiginosamente. em 1979, eram 2.937 – em 1997, pouco mais de 1.000.

a sensível variação do número de salas é a comprovação de como esta indústria está intimamente ligada ao entorno social em que está contida. ela não se desenvolve contra o fluxo, nem para além dele, mas de acordo com o seu rumo. a partir da década de 70, a geografia do cinema no brasil mudou acompanhando sua população: em 1975, 80% das salas de exibição situavam-se em cidades do interior. hoje, de cada dez salas, seis estão em 38 municípios com mais de 500 mil habitantes (que correspondem a apenas 0,68% dos 5.565 municípios brasileiros). mesmo que ainda proporcionalmente baixo, o número de cinemas tem crescido graças a programas de incentivo da ancine e ao cenário favorável da economia nacional.

cine holliúdy, além de tudo, segue na contra-mão do domínio televisivo na mídia brasileira. enquanto o cinema de hollywood influencia a linguagem de várias outras plataformas, é comum ver o caminho oposto acontecer por aqui: nossos filmes imitam os padrões já batidos das novelas. além de bom entretenimento, o longa de halder gomes é uma bandeira de luta por uma identidade cinematográfica própria – e ela não será televisionada.

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  1. Pingback: o falso regional | helloimjackson

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