reagimos certo?

mordomo

o mordomo da casa branca (eua, 2013) ★★★☆☆

há filmes que já nascem superlativos, seja pelo orçamento absurdo, pelo marketing agressivo ou pela recepção calorosa de público ou crítica. apesar de o mordomo da casa branca não se encaixar em nenhum dos casos citados, o longa surge carregadíssimo graças à vontade do diretor lee daniels de abraçar o mundo com as pernas. em sua nova obra, o cineasta conta a história dramática de cecil gaines (baseada, de leve, bem de leve, na vida de eugene allen), explica a evolução dos direitos civis da população negra americana, pincela os fatos marcantes na presidência dos estados unidos dos anos 50 a barack obama e ainda se estende em tramas menores, como o alcoolismo da mulher, a luta de seu primogênito, a tragédia do caçula, o casamento da vizinha e… calma, deixa eu respirar.

para dar conta de tanta coisa, o filme mete o pé no melodrama e abusa do recurso preguiçoso da narração em off que explica cada passo vomitando frases de efeito. pior que isso: os acontecimentos acabam se desdobrando muito rápido, o que compromete a verossimilhança da história – assim, acompanhamos o mordomo influenciar importantes decisões presidenciais com um simples desabafo aos chefes da nação. o elenco, estreladíssimo, traz boas surpresas (robin williams, alan rickman, oprah) e algumas frustrações (james marsden, minka kelly, lenny kravitz). mas, claro, há momentos belos e bem montados, como a sequência que alterna cenas de negros servindo um jantar enquanto outros esperam ser servidos num local proibido a eles.

o grande conflito do longa é, de fato, a dicotomia entre as formas de reagir ao cruel racismo da sociedade americana. enquanto o mordomo, de passado sofrido, se vale da, digamos, diplomacia para evitar atritos e conquistar a confiança dos brancos, seu filho mais velho louis defende que é hora de se rebelar com luta para dar fim à desigualdade. ainda que resolva essa questão de forma meio capenga, meio nas coxas, meio em cima do muro, o mordomo da casa branca me fez pensar sobre as diferentes formas de reagir à opressão.

veja bem. pode ser um mega estúpido devaneio de minha parte, mas acredito enxergar claramente grandes semelhanças entre negros que repelem brancos, homossexuais que chamam feliciano de enrustido e mulheres que objetificam seus peguetes no lulu. acho que esse tipo de reação é compreensível, explicável, até natural. foram muitos anos, décadas, séculos de humilhação, violência, negação dos mais básicos direitos. é esperado que um troco como esse exista. a reação é normal. é legítima. é humana. porém… é correta? questiono-me se, ao se transformar em opressor, o oprimido não estaria apenas perpetuando o mesmo erro – ou pior, dando munição ao inimigo numa guerra infinita. repetir o preconceito não seria apenas reforçá-lo? e quando é que fazer justiça se transforma em se vingar?

óbvio, também não defendo o oposto, o silêncio. calar-se diante do preconceito é corroborar com ele. é preciso denunciar e, claro, agir. chega a ser esquisito que, em 2013, ainda exista gente que precisa de um pito para entender que a idade média já dobrou a esquina. então, se um amigo falar besteira, corrija. se uma marca pisar na bola, boicote. se uma empresa for escrota, processe. acredito que é possível ir longe com resistência. grandes avanços no direito das minorias foram conseguidos com atitudes firmes de quem deu a vida, mas não o troco, para defender uma causa. zumbi dos palmares não é celebrado por maltratar brancos. harvey milk nunca quis reduzir os direitos dos heterossexuais. jerônima mesquita não defendia a proibição do voto masculino. não é simples ou fácil. não é instantâneo, muito menos definitivo. o tempo é curto, mas está a nosso favor.

a escuridão não pode afastar a escuridão, apenas a luz pode fazer isso. o ódio não pode afastar o ódio, apenas o amor pode fazer isso – martin luther king

  1. Danilo Alencar

    É exatamente dessa forma que os seres humanos reagem frente a uma situação de extremo desconfonto: em vez de atentarem para uma solução pacífica e coletiva, buscam pôr em prática a lei da ação e reação. Belíssimo texto, parabéns 🙂

  2. Pingback: o oscar te representa? | helloimjackson

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