o cinema brasileiro é machista?

loucas

loucas pra casar (brasil, 2014) ★★☆☆☆

imagine que você, uma profissional independente, rica e respeitada, descubra que seu noivo mantém um caso com outra – ou melhor (pior, nesse caso): uma não; ele esconde, na verdade, romance com duas outras mulheres. qualquer castigo seria pouco pra esse pilantra, concorda? surpreendentemente, não é isso o que acontece em loucas pra casar. as três envolvidas na traição passam a disputar o amor do marmanjo numa série de artimanhas para derrubar as rivais e ganhar o grande prêmio: uma passagem só de ida para o altar.

já reparou que o cinema nacional está cheio de longas assim? nas produções brasileiras, é comum que a mulher viva em função do homem, seja como objeto sexual, esposa zelosa e/ou dependente financeira. em loucas pra casar, é bastante emblemático o fato do noivo da protagonista ser também seu patrão. o domínio do falo apresenta-se, assim, em várias esferas, mantendo a personagem principal sempre como o significante do outro masculino – apenas portadora, nunca produtora de significado. ela apenas reage ao comportamento dele, original e isento.

da mesma forma, a película não apresenta um só personagem masculino alterado, inseguro ou mal educado. enquanto elas estão sempre à beira do surto, eles se mostram calmos, compreensivos e superiores. talvez porque lá, assim como na sociedade, as mulheres tentem loucamente se enquadrar numa imagem feminina projetada… pelos homens. o que vemos é uma procura sem limite pra entrar no padrão do que eles gostariam que elas fossem. em loucas pra casar, elas chegam a se estapear pelo homem desejado, ilustrando aquele chavão machista de que mulher não é amiga de outra.

acontece que esses estereótipos impostos à mulher, embora disfarçados, são uma forma cruel de opressão. além de reduzi-la em objeto, eles a anulam enquanto sujeito e reprimem seu papel social. tudo isso, claro, ao mesmo tempo em que criam a ideia de uma mulher ideal, passiva, consumista, inexpressiva, reacionária – e mais exposto, em minha opinião, no campeão de bilheteria e aí, comeu?.

mas a culpa do machismo não é apenas do cinema. embora possamos afirmar que nosso discurso patriarcal seja resquício da pornochanchada e que nossas influências sejam mais hollywoodianas que européias, é importante ressaltar que a nossa sétima arte é, a grosso modo, herdeira do que passa na telinha. nossos grandes astros, diretores, produtoras têm origem nas novelas, ao contrário do que acontece lá fora, onde o cinema é a mola-motora. a televisão brasileira é a grande mídia nacional. então estamos falando de um veículo em que sua maior rede exibiu o primeiro beijo gay há apenas um ano. não é de se espantar que nossa produção seja tão atrasada. enquanto nosso cinema não encontrar uma identidade própria, continuaremos acompanhando a continuação da novela das nove na sala escura – com direito a casamento no final da história.

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