(500) days of mars

martian

perdido em marte (eua, 2015) ★★★☆☆

o escritor alemão hermann hesse dizia que “a solidão é a forma que o destino encontra para levar o homem a si mesmo“. no novo filme do diretor riddley scott, entretanto, nem o maior exílio já pensado é capaz de trazer uma pitadinha sequer de reflexão a seu isolado protagonista. não que isso estrague o filme, mas deixa escapar a chance de trazer questões realmente pertinentes, como a presença física cada vez menos importante frente a consolos virtuais.

em perdido em marte, uma tripulação que explora o planeta vizinho é forçada a decolar depois que uma tempestade interrompe a missão. atingido por uma peça da nave, um dos integrantes é considerado morto e deixado pra trás. horas depois, ele acorda ferido e completamente sozinho no novo mundo, e terá de se virar para sobreviver sem comida, água ou previsão de resgate.

como de costume, o diretor é mestre em manufaturar universos que não existem. o design de produção e a fotografia oferecem um deslumbre visual nas paisagens inexploradas de marte, enquanto a montagem torna-se essencial para entender a geografia espacial daquele lugar. a contagem do tempo em sóis, se não nos acrescenta muito, serve para construir  um mundo diegético próprio, contribuindo com uma certa mitologia comum nos filmes de scott.

outra jogada corajosa foi a escolha de elenco. poucos meses após “debi & loid 2”, jeff daniels comprova sua versatilidade dando o tom certo de mistério ao diretor da nasa. kristen wiig e donald glover, normalmente renegados ao alívio cômico, desempenham papéis sérios e fundamentais à trama. e se ela se esforça em oferecer um trabalho menos afetado, ele surge como a epítome do caricato – mas sejamos justos: seu personagem é, no máximo, um deus ex machina do roteiro para solucionar, de forma preguiçosa, um dos problemas da história.

mas o principal trunfo de perdido em marte é usar a ciência de verdade para avançar na trama. por isso não espere ouvir baboseiras como “oh não, precisamos consertar o desjuntor de partículas” na telona. toda teoria de lá tem base científica fiel ao livro de andy weir. a obra também é nobre ao lançar um holofote sobre a pesquisa botânica, pouco citada em obras de ficção – afinal, onde estavam os botânicos em “interestelar“?

sem revelar se o protagonista sai ou não de seu retiro interplanetário, o que podemos fazer é nos questionar se um período tão grande de solidão não seria capaz de produzir efeitos emocionais e psicológicos profundos. mark watney, o personagem principal, reage a tudo em alto volume, com entusiasmo quase infantil. mesmo com a saúde debilitada e chances mínimas de sucesso, ele se mantém esfuziante como um chefe de excursão. é complicado. fica inverossímil, força a barra. é um tanto decepcionante também constatar que o protagonista chega ao fim sem qualquer evolução. se toda a (incrível!) jornada que vimos não foi transformadora, qual é o sentido de contá-la? e tem mais: se alguém não gosta de disco music, merece ser deixado em marte mesmo.

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