e aí, bateu?

sausage

festa da salsicha (eua, 2016) ★★★☆☆

se há algo que seth rogen pode se gabar de ter legado ao cinema, sem dúvida, é o filme-de-chapado. empenhada em oferecer deslumbres surreais a quem está sob efeitos tabalísticos, a trupe de rogen se especializou em obras feitas para (e provavelmente por) quem só quer curtir uma brisa louca – e, como qualquer papo de lombra, suas histórias podem ser geniais e idiotas na mesma proporção. vai depender se o barato bateu ou não.

em festa da salsicha, produtos de supermercado sonham com o dia em que serão arrebatados para o “grande além”, ou seja, quando serão comprados embora dali. para isso, dedicam suas existências em sacrifícios e louvores aos humanos, tidos como deuses naquele mundinho. até que um pequeno imprevisto coloca em risco a vida de alguns perecíveis, levando salsichas e pães numa saga que vai descortinar novos conceitos de realidade.

o filme-de-chapado desta temporada pode enganar à primeira vista. pra começar, por se utilizar de um formato infantil na construção de um épico picante. não se trata de um recurso inovador: animações para adultos não são raridade na sétima arte. a diferença é que suas temáticas costumam ser mais “sérias” e suas técnicas são criteriosamente escolhidas para ambientar a trama. em festa da salsicha, os personagens-produtos são arredondados, fofinhos, têm olhos e luvinhas, o que pode gerar uma experiência desconcertante em meio às suas anatomias sugestivas e diálogos explícitos.

mas a grande sacada de rogen e sua turma é outra aqui. utilizando chavões da comédia para atrair o grande público, eles conduzem sorrateiramente o espectador mais conservador a um discurso essencialmente arrojado. há quem defenda o humor do filme como politicamente incorreto – de fato, caricaturas são a porta de entrada para as piadas mais rasteiras da animação: desde estereótipos de gênero e raça até assuntos mais delicados, como a questão entre árabes e judeus e o nazismo alemão. a mensagem final do longa, contudo, flerta com dilemas existenciais e vai além, vislumbra um mundo sem dogmas ou amarras sociais. sua “moral da história” é um convite a uma sociedade conscientemente epicurista.

o problema é que a trama se desenrola como qualquer conversa de chapado e não sabe a hora de parar. o ritmo oscila, o interesse desaparece. pode ser uma experiência e tanto para quem continua alto, mas quando a lombra passa você se questiona se tudo aquilo tem graça mesmo, se a dialética procede, se tem sorvete ou feijão naquele pote do congelador. valeu a pena toda a jornada? será que o metrô ainda está aberto? alguém aí aceita oreo com ketchup?

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