a classe média que odeia a classe média

toryca

tô ryca! (brasil, 2016) ★☆☆☆☆

uma coisa é ser o rei dos palhaços, outra é ser o palhaço dos reis. (millôr fernandes)

nada é mais fácil que bater em pobre. zombar de suas roupas, atribuir comportamentos, satirizar, marginalizar, diminuir. no cinema nacional, nada é mais comum. o lascado-que-vira-estribado (até que a sorte nos separe, um suburbano sortudo etc) e o que tenta de tudo para alcançar a fortuna (família vende tudo, vai que cola etc) tornaram-se figurinhas fáceis em nossa telona. em comum, todas essas obras apresentam 1) a riqueza como um acontecimento externo e imediato, uma dádiva, deus ex machina, e 2) a neutralidade, ou mesmo apatia, ao tratar da origem social da dificuldade financeira – e, embora não configurem defeito, essas escolhas dizem muito sobre os retratos que emergem da película.

em tô ryca!, samantha schmütz vive uma frentista que precisa torrar r$ 30 milhões em 30 dias para ter direito à herança do tio. representante da chamada nova classe média, selminha sofre diariamente os perrengues de quem depende de um estado ausente e falho. na gincana pela grana, ela conta com a amiga luane para gastar tudo em farras e luxos. segue-se então um festival de lugares-comuns, que incluem a tradicional ostentação, gafes e, claro, mudança de visual – que alisa e clareia a protagonista.

a insistência desse tipo de filme expõe uma delicada questão de classes no brasil. fazer sucesso com uma caricatura pejorativa do estrato social de 53,9% da população, que é responsável por mais de um terço do público das salas de cinema, só é possível graças ao ódio que ela tem de si mesma. isso não quer dizer, claro, que toda a classe c seja formada por recalcados. entram nessa conta aquelas pessoas que acreditam que rir dos outros as coloca em posição superior ao alvo da piada – é como se alguns acreditassem que, ofendendo determinado segmento, deixam claro aos outros que não fazem parte do recorte zombado. não precisa ser consciente, nem maldoso – e não é pouca coisa: na última eleição, a identificação com a elite empossou prefeitos milionários em mais da metade das maiores cidades brasileiras.

desde o tempo das cerimônias dionisíacas e cortejos fálicos, a comédia sempre esteve próxima às camadas populares. ao satirizar autoridades e deuses, tornou-se braço da democracia. na obra nacional, contudo, é quase regra que as alusões jocosas se refiram apenas aos oprimidos, nunca aos poderosos. esta surra em cachorro morto é o que torna a nossa produção, pra dizer o mínimo, questionável. em tô ryca!, a trama chega a flertar com uma curiosa discussão política… que acaba se dissipando sem explicação. parece que é sempre permitido se aproveitar da situação brasileira para fazer humor, desde que a piada não questione o status quo.

convém lembrar ainda que, no cinema, o pobre-que-vira-rico é um recurso antigo. por exemplo: a primeira versão de o príncipe e o mendigo, adaptação do clássico de mark twain, é de 1915. mas o estouro desse tipo de história só viria mais tarde, após a crise econômica de 1929. durante a recuperação econômica dos eua, frank capra pariu três desses tipos: dama por um dia (1933), aconteceu naquela noite (1934) e o galante mr. deeds (1936). do reino unido, podemos citar pigmalião, de 1938, adaptação da peça de george bernard shaw (que chegaria aos estúdios americanos em 1964, na forma de my fair lady).

se o fenômeno dos pobres-ricos no cinema nacional, tal qual na gringa, é reflexo do nosso período econômico, a mensagem final é desanimadora. a fortuna almejada cai como uma bigorna na cabeça dos sonhadores. contrariando o senso comum, o dinheiro dos filmes traz apenas problemas. numa sociedade em que o vil metal compra tudo, talvez até juízes, a moral da história parece uma ode ao conformismo: melhor continuar pobrinho e feliz, né? é complicado. o combate a esse discurso não impõe que toda película precise ser engajada e seus personagens, líderes comunitários. mas é possível desbravar alguns caminhos: ao narrar um conto, você escolhe se mostra uma sociedade consciente e atual ou se perpetua uma visão retrógrada de mundo. olha direito, o país tá mudando! a classe média precisa se ver (e se identificar) nas telonas. por enquanto, infelizmente, o mesmo retrato de sempre prevalece em cena – agora com cores mais berrantes.

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  1. Pingback: papai sabe tudo | helloimjackson

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