o falso regional

sertao

o shaolin do sertão (brasil, 2016) ★★★☆☆

aluísio li é um padeiro que sonha em se tornar mestre das artes marciais. para provar seu valor ao patrão e sua filha, por quem é apaixonado, ele decide enfrentar o maior lutador da região, até então invicto. antes, porém, o rapaz embarca numa jornada de treinamento com um mestre chinês que lhe transmite lições sobre golpes e o sentido da vida. contando assim, a história de o shaolin do sertão soa tão universal como um tarantino ou um kar-wai. mas por se passar no sertão do ceará e não economizar no sotaque, a nova comédia de halder gomes, de cine holliúdy, ganhou automaticamente o rótulo de “regional” pela imprensa sulista – e isso diz muito… sobre a nossa imprensa.

a história mais remota do nosso cinema é formada por períodos alternados de destaque. com pequenos espasmos, nossa produção foi crescendo isolada em determinados lugares. esses lampejos tornam possível que a cronologia do cinema brasileiro seja dividida em ciclos regionais: ciclo do recife (1923 a 1931), ciclo do rio grande do sul (anos 30) etc. cada uma dessas fases é formada por uma efervescência de títulos com mesma origem, o que não se observa em o shaolin do sertão. embora a produção de cinema cearense, fortalecida por leis estaduais e pelo festival cine ceará, seja constante e até mesmo sólida, não podemos atribuir características específicas aos títulos feitos por lá – que não diferem, em termos de linguagem, aos filmes produzidos em outros polos, como de paulínia, jacarepaguá ou sobradinho.

ainda assim, é preciso lembrar que, ao contrário do que algumas lojas de dvds sugerem, “filme nacional” não constitui um gênero de cinema. estamos longe, pro bem ou pro mal, de uma identidade cinematográfica própria e o cinema novo, nosso mais celebrado movimento, descansa há meio século de distância. nossa indústria luta contra golias diários para se manter produtiva e, talvez por uma questão mercadológica, amontoar todos os títulos feitos no brasil sob o rótulo de “filme nacional” sirva para engrossar um pouco o nosso caldo ralo. é no mínimo estranho, portanto, quando veículos de imprensa burlam essa convenção para classificar um título produzido apenas em algumas regiões.

pensa bem. grande parte da obra de almodóvar se passa em madri, woody allen tornou nova york sua grande marca e todos os filmes de john waters têm baltimore como cenário. ainda assim, nenhuma de suas películas é descrita como “regional” pela nossa imprensa – ou por qualquer outra. mesmo que um filme tenha características (ambientação, sotaques, costumes, estilo de vida) marcadamente paulistas ou cariocas, a terminologia “regional” passa longe de suas resenhas. o motivo está na semântica: há muito, o termo deixou de ser apenas um demarcador de território e passou a significar algo exótico, artesanal, amador, folclórico. aquilo que a gente vê na festa junina. que a gente só sabe que vem “lá de cima”. que é comum ao garçom, à diarista, ao porteiro. que é menor.

o brasil é formado por uma preciosa mistura de culturas, costumes e contrastes. o shaolin do sertão é um exemplo perfeito dessa combinação sem limites: década de 80, filosofia chinesa, artes marciais, disputa política, interior do ceará. é impossível pensar numa identidade nacional enquanto os formadores de opinião do eixo rio-sp olharem com superioridade para as manifestações de outros lugares. e, parafraseando cecília meireles, “nada é mais universal do que o regional”.

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