spice girl

eliss

elis – o filme (brasil, 2016) ★★☆☆☆

retratar um verdadeiro ícone em 120 minutos exige precisão cirúrgica – não apenas pelos recortes necessários numa vida intensa e cheia de nuances, mas também pela expectativa que orbita o universo da personagem em questão. sete dias com marilyn, de simon curtis, é um exemplo bem sucedido de obra que consegue dar conta do todo a partir de uma amostra muito específica. elis – o filme, de hugo prata, é o oposto disso em todos os sentidos.

para começar, podemos nos questionar porque grandes nomes, fundamentais para a obra de elis, ficaram de fora do longa. tom jobim, milton nascimento, rita lee, gilberto gil, nenhum deles é sequer citado durante a projeção. se a justificativa era agilizar a narrativa, temos então um problema maior: o ritmo do filme é completamente irregular. se o foco era vida íntima de elis, a bola bateu na trave.

num formato absolutamente quadrado e austero, a história apresenta uma elis vigorosa já no começo de carreira. misto de marra e deslumbre, ela surge determinada e consciente do seu talento a ponto de peitar o próprio pai em nome do que acredita – pena que essa mulher forte suma no restante da película. a partir daí, temos uma enxurrada de fatos pincelados que viram lacunas no roteiro: o que acontece com o pai dela? com o primeiro empresário? qual o fim do programa com jair rodrigues?

em nome de um suposto arco dramático, a personalidade vibrante de elis é diluída, apagada e substituída por uma esposa de stepford. embora o filme martele a ideia de que estamos diante da maior cantora do brasil, o que se vê na tela é uma mulher que sucumbe a todas as sugestões dos homens que a cercam. de seus trejeitos no palco, do corte de cabelo à escolha de repertório, tudo é decidido pelos outros – homens, já que a protagonista praticamente não tem qualquer interação com outra mulher durante toda a história.

alguns momentos chegam a causar vergonha alheia, como a cantada de quinta que muda radicalmente a opinião de elis sobre joão marcelo bôscoli. outros parecem brincadeira, como a abrupta passagem sobre as drogas que culmina no fim da história que conhecemos. mesmo quando o contexto militar vem à tona, a trama desliza pro melodrama e traz uma cena constrangedora de novela das seis. é tudo tão rápido que a impressão é a de que perdemos algo.

apesar do design de produção impecável e da completa entrega de andréia horta no papel principal (outro destaque é júlio andrade como lennie dale), elis – o filme não chega à sombra da maior cantora que o brasil já teve. pior: transformou a nossa pimentinha numa spice girl.

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