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minha mãe é uma peça 2 (brasil, 2016) ★★★☆☆

paulo gustavo continua determinado na missão de dominar todo o país. depois de encavalar sucessos no teatro e na tv, o comediante retorna às telonas com sua personagem mais famosa, a matrona dona hermínia. numa época em que o cinema nacional encontra-se refém de comédias rasteiras, é um alívio perceber que minha mãe é uma peça 2 se mostra uma evolução do primeiro filme, não apenas uma repetição de fórmulas.

não é justo, claro, esperar uma trama profunda ou várias camadas dramáticas em seus personagens. o longa se apoia num humor popular, mas nem por isso óbvio. é interessante perceber sutilezas de interpretação inexistentes até então na performance de gustavo. um exemplo é o momento em que dona hermínia recebe a notícia de que seu filho vai morar em são paulo. em mãos erradas, a cena facilmente cairia no esculacho – o que vemos, contudo, é o esforço de uma mãe em se manter forte mesmo ao notar que não é mais tão necessária à vida de seus rebentos.

o tempo da história também veio para o presente, sem flashbacks, deixando o roteiro fluido. embora alguns cortes ainda pareçam ríspidos, é possível acompanhar o desenvolvimento da narrativa sem sustos. com mais recursos que o filme anterior, uma das novidades é o talk-show apresentado por dona hermínia: uma superprodução que parece trazer entrevistas reais – e hilárias – para a história. os atores coadjuvantes também surgem mais inspirados, com destaque para samantha schmütz no papel de valdéia.

embora dona hermínia pareça aceitar melhor a natureza de suas crias, as piadas com minorias continuam a mola-mestra da produção de paulo gustavo. mesmo o endosso da protagonista à orientação sexual do filho se torna um tiro pela culatra, já que ela passa a exigir que ele se molde ao comportamento que ela espera. respeito à diversidade, infelizmente, é uma pauta que passa longe de minha mãe é uma peça 2.

outro ponto delicado é a santidade paterna apresentada no filme. enquanto a matriarca se desdobra para dar conta de trabalho, casa, filhos, irmãs, vida social e pequenos afazeres, quem colhe a admiração da prole é o pai. vivido por herson capri, tão cativante quanto uma placa de trânsito, a figura paterna aparece sempre calma, contida, dotada de razão e portadora da palavra final. tudo se resolve muito fácil pra ele. sobra à mulher os chavões de surtada, maluca, inconsequente. num país com 5,5 milhões de crianças sem pai no registro, a “homenagem a todas as mães do brasil” podia ter ficado sem essa.

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