obra aberta

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spoi

animais noturnos (eua, 2016) ★★★★☆

uma obra é ao mesmo tempo o esboço do que pretendia ser e do que é de fato, ainda que os dois valores não coincidam. (umberto eco)

no segundo filme de tom ford, um casamento em ruínas é o contexto para apresentar susan morrow, uma bem sucedida marchand que, inesperadamente, recebe o novo livro de seu antigo amor. tem-se início, então, um intrincado delírio mental que se desdobra em três histórias diferentes com certas “conexões” entre si. embora pareçam narrativas independentes, este texto vai defender a teoria de que todas as tramas são, na realidade, variações de mesma origem: os sentimentos de culpa e frustração da protagonista.

a ideia toda é bem simples: dos três tempos em que o longa se desenrola, apenas um, o  presente, traz os fatos como são de verdade; os outros dois – livro e flashbacks – seriam reflexos do pensamento conturbado de susan. essa premissa faz toda a diferença porque, antes dela, vemos todas as narrativas com a mesma credulidade. entretanto, seguindo algumas pistas que o roteiro espalha, podemos concluir que, bem, estamos mais presos à visão da personagem principal do que imaginávamos.

a primeira (e mais óbvia) pista seria a profissão de susan. como dona de galeria, cabe a ela filtrar e classificar o que é arte ou não. esse crivo, por mais técnico que possa ser, tem um viés inerentemente subjetivo que é explorado em pelo menos dois momentos: em determinada cena, num jantar informal, quando um amigo elogia a nova exposição trazida pela protagonista, ouve dela que aquilo não passa de “um monte de bosta”. mais tarde, ela é profundamente impactada por um quadro escrito “vingança” enquanto sua assistente demonstra completa apatia. essas interpretações muito pessoais são fortes indícios de que a história do livro pode não ser exatamente o que estamos vendo. no plano “real”, reforçam que susan coloca grande parte de si na interpretação do que vê.

depois vem o complexo de vítima de susan. embora acuse os outros de covardia, ela é quem não consegue assumir a responsabilidade pelas suas escolhas. em sua concepção, o algoz é sempre o outro: a mãe conservadora, o ex sem ambição, o marido infiel. incapaz de agir por conta própria, ela espera que a mudança parta de fora pra dentro – a união que a livra da família, o homem charmoso que a tira da estagnação, o ex que finda sua crise conjugal. por isso não é de se estranhar que as vítimas do livro imaginadas por susan sejam também ruivas como ela, assim como o herói tenha a mesma cara do ex.

imersa em expectativa e arrependimento, ela costura a trama criada por edward às suas memórias e seu cotidiano (que a montagem do filme explora lindamente em rimas visuais). portanto, ao contrário de ter sua história inspirada para criar um romance, o mais provável é que susan adapte fragmentos do livro à sua vida atual, monótona e infeliz. e para deixar bem claro que a protagonista vê coisas onde não existem, o diretor incluiu uma cena de gosto duvidoso na qual um celular tem a tela quebrada.

por fim, se há alguma dúvida sobre as intenções de edward em oferecer o livro a susan, temos o desfecho do terceiro ato que mostra, de uma vez por todas, a importância dela na vida dele. presente de ex não pode ser coisa boa.

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