o primeiro homem

ate

spoi

até o último homem (eua, 2016) ★★★☆☆

quando se alistou no exército, desmond doss só queria cumprir seu dever patriótico. parecia o mais sensato a fazer, pensava consigo mesmo – ignorando o peso do social que, silenciosamente, tomava as rédeas da decisão. doss ainda não sabia, mas assinar aquela ficha mudaria radicalmente a sua visão de mundo. e de amor.

no quartel, ele se tornou um prato cheio para provocações. implicavam com seu jeito, seu sotaque, sem motivo. franzino, adventista fervoroso, temente a deus e, principalmente, aos próprios instintos, desmond doss era constantemente humilhado e espancado por se recusar a pegar em armas. sua munição, dizia, eram seus medicamentos e sua missão, salvar vidas. a birra prolongou-se para além do batalhão, porém, lá dentro, mexia principalmente com o soldado smitty, um dos mais valentes fuzileiros americanos.

havia algo diferente em doss, e o soldado sentia isso. ao contrário dos outros, smitty entendia que aquela postura orgulhosa estava mais próxima da bravura que da covardia. é preciso ter colhões para ser o que se é, mas de onde vinha tamanha coragem? ele se sentia inexplicavelmente atraído a tentar resolver esse mistério, mas repelido por cogitar a possibilidade. arriscava aproximações insuspeitas, buscava briga, cuspia desafetos. dormia fitando o sono de doss, cuja cama ficava a alguns metros – chegou a salvar a pele do magricela, impedindo que seus amigos o espancassem até a morte. mas por quê?

okinawa, 1945. de repente, a guerra não era apenas mais um substantivo vago. cada um com sua coragem, os soldados vencem sua primeira batalha no front. smitty destruindo cabeças, doss costurando feridas. a dimensão da vida encolhe, a da morte aumenta, estraçalha, devora. a noite cobre a superfície, todos se escondem. dividindo a mesma trincheira, os dois soldados se veem sozinhos no mundo. dois pontinhos de luz num imenso oceano de trevas. agora, não mais tão sozinhos. eles se conhecem, se abrem, se amam.

de manhã, os primeiros tiros trazem o batalhão de volta ao jogo. separados, os amantes seguem suas tarefas: matar e salvar. o inimigo aparece em número cada vez maior, brota do chão, materializa-se no ar. a quantidade de bombas dificulta mirar no alvo, caminhar até os feridos, mas não impede o pensamento de voltar à noite passada, revisitar o beijo, o toque, o gozo. sentir-se invencível. até que smitty é atingido no peito.

inconsolável, o médico soldado testemunha a vida de seu amor escorrer de suas mãos. os olhos de smitty, onde doss mais gostou de morar, tornam-se duas bolas verdes opacas, fixas para o nada. o coração de ambos está arruinado. é castigo, é punição, é sacrifício. o franzino doutor decifra a mensagem divina e, imediatamente, recolhe-se à sua insignificante existência. vai voltar pra bíblia, igreja, mulher, vida direita. vai voltar já. mas vai voltar sem saber que a bala que matou smitty veio da arma do ciumento capitão de seu quartel.

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