terapia de choque

chocante (brasil, 2017) ★★★☆☆

sabe quando você acorda de ressaca, lava o rosto, coloca umas roupas estranhas e vai trabalhar? os anos noventa foram mais ou menos isso. depois da euforia da década anterior, o povo tomou um engov e fingiu que tava tudo bem – mas se o planeta estava grogue, imagina o brasil. era época de usar (e esgotar) a fórmula das boybands na carona do sucesso mundial dos new kids on the block. em chocante, um desses grupos resolve, vinte anos depois, voltar aos palcos para reviver seus dias de one-hit wonder.

com uma abertura surpreendente, de timing cirúrgico, o filme traz um primeiro ato inspirado e refrescante. a apresentação hilária dos personagens dá ritmo à história, assim como as insistentes referências a uma determinada morte empurram o humor até o seu limite. embora quase todo o conjunto esteja afiado, quem se destaca é a fã inveterada da banda, interpretada por débora lamm. histérica e otimista ao extremo, ela cospe energia e palavras erradas, tornando sua quézia mais carismática até mesmo que a criança do elenco (klara castanho).

mas aí vem o flop: no segundo ato, a impressão é que aquilo tudo saiu do controle. a película afunda em dramas familiares que não se resolvem e figuras que não acrescentam ao enredo. as piadas vão ficando cada vez mais raras, tontas e repetidas. o que salva esse pandemônio é o improviso de marcus majella, que transforma seus devaneios no espelho em pequenas e irresistíveis esquetes. pena que isso logo se torne – também – enfadonho ao requentar pela terceira vez o mesmo artifício para fazer graça. o desfecho singelo e abrupto, porém, ajuda a recuperar um bocado da fé perdida em chocante.

o longa é ainda um deleite estético: tem produção de época caprichada, trilha sonora chiclete e efeitos especiais sutis. embora a trama reforce alguns estereótipos (a mulher que enche o saco do marido, o gay pintoso e enrustido etc), o roteiro pega bem leve-leve nas piadas escrotas – o que é bastante singular vindo de um título com bruno mazzeo entre os realizadores. parece que alguém aqui está virando hominho. o resultado dessa ousadia pode não ser chocante, mas é, no mínimo, interessante.

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