bonecas russas

a noiva (rússia, 2017) ★★☆☆☆

em março deste ano, vladimir putin surpreendeu o mundo com um discurso que, em suma, defendia que “as mulheres precisam do respaldo do homem” – isso no dia internacional delas. alguns meses antes, deputados russos aprovaram projeto de lei que descriminalizava a violência doméstica (ainda que dados apontem que, por lá, a cada 40 minutos, uma mulher seja assassinada por parentes ou parceiro). em todo o país, a legislação ainda proíbe as mulheres de exercerem mais de 450 tipos de emprego. se, no mundo todo, a igualdade de gênero ainda é um sonho a ser perseguido, na rússia ela sequer pode ser vislumbrada – e ter esse contexto em mente é fundamental para entender a noiva.

ambientado numa época em que o domostroy ainda era regra (o código de conduta russo, que vigorou até a revolução de 1917, defendia, entre outras coisas, que “a mulher que é boa, trabalhadora e silenciosa é como uma coroa para o seu marido”), o filme tem início tenso: na tentativa de registrar no papel a imagem de sua noiva morta (que insiste em não ficar parada), um fotógrafo acaba desencadeando uma maldição que acompanhará sua família por várias gerações. o ritual macabro é justificado pela lenda de que, naquele tempo, acreditava-se que o negativo da foto guardaria a alma de quem faleceu. a partir daí, a história se desloca para o presente e perde grande parte do seu elemento trágico, mantendo, contudo, sua carga de significados.

como nas melhores obras de terror, o título usa a metáfora para comentar sobre uma realidade que já é apavorante o suficiente, a união como destino imposto a moças – não é à toa que uma das cenas mais assustadoras envolve exatamente o “enlace matrimonial” forçado. a trama também segue ancorada nos preparativos de uma festa de casamento que vai se revelando, a cada minuto, uma cerimônia de sacrifício. se por um lado nos causa revolta a submissão com que a protagonista parece encarar todas as situações, por outro nos frustra perceber que ela não encontra apoio em qualquer pessoa próxima, nem mesmo entre as mulheres que já passaram por tudo aquilo. a grande vilã da história também reforça o pesadelo (e, muitas vezes, a sina) de qualquer jovem russa: uma noiva amargurada, austera, calada, que se esconde entre as paredes da casa e exige a castidade de suas meninas. é interessante notar como o design de produção combina com a fotografia para fazer o discurso soar atrasado – todo o cenário e a caracterização dos personagens não diferem muito entre as épocas, a não ser por um filtro envelhecido que evidencia quando estamos diante de um flashback. uma analogia que revela que nada, afinal, mudou muito ali.

o desenvolvimento dos personagens é curioso. assim como na narrativa cristã, as mulheres do filme são praticamente extremos opostos: a santa devota ou a pecadora da vida. já os homens seriam o intermédio: sem qualquer traço de personalidade, pairam como amálgamas das contradições de um patriarcado que, embora latente, não encontra sua razão de ser. infelizmente, as interpretações não podem ser avaliadas porque as cópias de a noiva distribuídas no brasil são dubladas em inglês. isso estraga grande parte do clima, já que elimina o som original ambiente e a sincronia dos movimentos labiais. a sensação é a de que os áudios foram todos gravados em estúdio, derrubando o universo sonoro construído para a narrativa (é frustrante ver cenas, como uma de perseguição na floresta, sem qualquer barulho de passos, de vento, de mosquito).

por mais que tente lembrar (ou seja vendido como) um terror hollywoodiano, a noiva apenas expõe o quanto a sociedade russa é diferente da ocidental. se estamos engatinhando nas questões de direitos humanos, por lá elas ainda estão em concepção. assim como cadáveres com pálpebras pintadas para simular olhos abertos, o registro soviético que nos chega é grosseiramente falsificado. como se preservados por um negativo antigo, valores arcaicos permanecem vivos e perigosos – e precisam ser destruídos. o quadro é cruel e a noiva é, na verdade, a vítima.

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