o jovem segundo a dc

liga da justiça (eua, 2017) ★★★☆☆

no universo dos super-heróis, poucas figuras representam o adolescente de maneira tão sensível quanto peter parker. criado por stan lee, o garoto é a síntese daquela delicada equação de entusiasmo e insegurança que todos passamos – ou esticamos – pela vida. em suas histórias, as pressões, descobertas e paranoias juvenis andam ao lado de aventuras surpreendentes. além de resolver as agruras de sua super-identidade, parker precisa lidar com os conflitos de sua nova condição, o tal triângulo das bermudas entre a infância e a fase adulta. não por acaso, na adaptação de sam raimi pro cinema, os poderes recém-adquiridos, para além de apresentar o personagem, expõem também sua puberdade latente. na versão recente, o homem-aranha está menos contemplativo e mais debochado, porém sua aura frágil e bagunçada permanece intacta, típica de quem deseja, com a mesma intensidade, salvar o mundo e cinco minutos a mais de sono.

numa narrativa fantástica, povoar o panteão de grandes heróis com personagens franzinos faz todo sentido. mais que gerar empatia com o target, diversificando tipos para identificação, pequenos salvadores também funcionam como alívio cômico, amaciando a tensão causada por lutas e mortes inevitáveis, e decodificadores da trama, questionando a ação no decorrer da história para explicar à audiência o que acontece na tela. do ponto de vista da indústria, jovens astros são mão de obra fácil e prestativa – sem salários astronômicos ou deslumbres de divas. já no aspecto cultural, o foco nos mais novos é impositivo: a cultura de massa, afinal, persegue, espelha e enaltece a juventude (alô, morrin!).

por tudo isso, é frustrante acompanhar um dos maiores nomes em cultura jovem do mundo, a dc comics, perder a mão ao retratar a “sua versão de peter parker”. em liga da justiça, barry allen é apresentado como um jovem delinquente que acredita na inocência de seu pai, condenado pelo assassinato da esposa. o peso dramático, contudo, acaba aí. ao ser escalado para a turma dos heróis, ainda nos primeiros minutos do longa, barry se converte numa metralhadora humana de gracejos. em todas as cenas do flash, seu alter ego poderoso, a piadinha é certa – e o constrangimento, também. não só pela atuação forçada de ezra miller, mas, principalmente, pelo tom jocoso que destoa da “embalagem hbo” que veste os títulos da dc. essa impressão gera incômodo e desconforto. parece que tem alguma ponta solta, a conta não fecha, as partes não se encaixam. de tanto insistir no caricato, o reforço engraçado logo azeda e transforma o personagem, espécie de universitário cheio de energia, num bobo da corte desesperado por atenção.

a situação degringola de um jeito que chega a colocar a própria construção da obra em risco. o tom sombrio perde a credibilidade à medida que o flash vai se abobalhando. a gravidade das escolhas pode ser medida em duas cenas específicas: quando ele é atingido pelo vilão, lobo da estepe, e na hora de salvar refugiados de uma área de risco. ambos os momentos geram, acredite, gargalhadas nas pessoas – não por apresentarem um bom repertório de anedotas (na verdade, são partes tensas e até trágicas), mas porque o público passou a associar o herói ao riso fácil. a questão, entretanto, segue aberta: qual, ou quem, de fato, é o motivo da piada ali?

numa saga com tantos protagonistas, é compreensível a dificuldade em desenvolver de pronto um novo personagem cheio de camadas e motivações. complicado talvez, impossível nunca: basta olhar, no mesmo filme, para o ciborgue. quase tão jovem quanto o flash, ele se vale do mistério para simular certa profundidade dramática. não se trata, claro, de um hamlet reinventado, mas o roteiro é respeitoso e cumpre seu papel de mostrar e instigar, um território onde barry allen apenas tropeça. ao retratar o caçula dos heróis de forma parva e sonsa, a dc comics deixa escapar também o jeito que vê os adolescentes, uma das maiores fatias do seu público – nada além de piada.

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