domingo maior

jogador nº 1 (eua, 2018) ★★☆☆☆

aquelas matérias do fantástico explicando o meme da moda acabaram de ganhar uma versão cinematográfica de 140 minutos. o novo filme do spielberg é uma aventura do barulho, num mundo virtual pra lá de pirado, contada para senhorinhas de setenta anos que assistem ao jornal nacional numa tv de tubo, bombril na antena, ronco e pantufa, lá em cotia. tudo é ex-pli-ca-di-nho pra que ninguém se perca no emaranhado de referências. “mas a senhora viu que o moço ali desvendou o mistério? não? peraí, que ele vai ler o bilhete em voz alta pra deixar mais claro”. duas horas e vinte minutos de uma lenga-lenga que black mirror entrega em meia hora.

a trama empolga: num mundo assolado pela pobreza, as pessoas encontram refúgio numa realidade alternativa. na rede chamada oasis, qualquer um pode ser o que sempre sonhou. prestes a morrer, o criador desse mundo mágico deixa três enigmas que darão a quem desvendá-los poder absoluto sobre aquele universo. até aí, beleza. a execução da história, contudo, torna explícito que quem a adaptou nunca pegou num console antes – ou então mandou pras cucuias qualquer aprendizado de user experience que os games proporcionaram. por exemplo:

  • os trajes: as pessoas ainda dependem de óculos enormes pra viver uma realidade virtual. pior: é preciso colocar todo um equipamento com roupas, sensores e fios para se desligar do mundo de verdade. preguiça! se eu tiver que colocar todo esse aparato pra jogar colheita feliz, adeus! ainda mais em 2045.
  • os gráficos: no oasis, a qualidade das imagens é similar ao que víamos no saudoso ps2. décadas e mais décadas desenvolvendo uma tecnologia que substituiria a realidade e o resultado é um avatar que parece a eva byte. só lembrando, o filme se passa em 2045.
  • os deslocamentos: uma das grandes vantagens da internet e dos games é clicar em algo, e – pronto! – estar lá. em jogador nº 1, você precisa literalmente caminhar (com seus pezinhos do mundo real) pra chegar a qualquer lugar. qual a vantagem de jogar algo assim? boa pergunta. inclusive: 2045.

ainda assim, a película impressiona pela concepção visual de uma comunidade carente do futuro e pelo remix que faz de uma obra-prima do kubrick. de resto, muita autorreferência e nenhuma contribuição à filmografia de seu diretor. tudo sem nexo, como os crimes transmitidos pro mundo todo sem interrupção da polícia, a maior empresa do mundo que espia as ruas mas não tem circuito interno de vigilância e a guerreira que lidera uma resistência mas sofre melindres por um sinal de nascença. só faltou o link ao vivo com o márcio canuto.

Um Comentário

  1. Denes Fernando

    nem preciso dizer que amei o texto e é por eles que eu vivo, é por essa crítica recheada de ironias que anseio ler sempre, obrigado, por me advertir.

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