pedaço de mim

fragmentado (eua, 2017) ★★☆☆☆

shyamalan consegue ser o inverso proporcional de stephen king. se o escritor consegue transformar histórias aparentemente tolas em suspenses competentes, o diretor segue na contra-mão: reduzidos a um tuíte, os insights do indiano são geniais; esticados num filme de duas horas, haja saco.

fragmentado é um desses casos típicos. a trama se desenrola a partir de um sujeito que, vítima de transtorno, abriga 23 personalidades distintas dentro de si. como se não fosse pouca coisa, algumas dessas identidades conversam entre si, conspiram e armam planos para vir à luz. pior: ameaçam a vida de pessoas inocentes em nome de uma suposta superioridade psicológica. nenhuma dessas personas, porém, contava com um monstro maior que as duas horas de filme: o ego do diretor.

catapultado ao olimpo com o sexto sentido, shyamalan abraçou com as pernas a ideia de que seria o hitchcock dos novos tempos. mais que um nome, ele se tornou uma grife. a reviravolta final se tornou sua marca (nem sempre bem empregada), e sua direção sempre carregou nas cenas um “ar de mistério” (nem sempre bem conduzido). os cartazes de seus filmes sequer creditavam os atores, a única informação necessária era o “dirigido por”. até mesmo suas pequenas participações na história, homenagem ao mestre do suspense, tornaram-se grandes demais – em a dama na água, ele interpreta um dos personagens de maior destaque. cego pelo deslumbre, shyamalan viu sua reputação descer pelo ralo. virou piada em hollywood.

é por isso que fragmentado não apenas bebe, como toma banho e injeta na veia da fonte mais pura de sua origem. o retorno de shyamalan deixa claro que ele veio disposto a tomar de volta a faixa perdida de miss medinho. cada cena do novo longa tem o claro propósito de lembrar que há um grande diretor de suspense por trás de tudo. não importa se a personagem está sendo perseguida ou apenas limpando o ouvido: vai ter câmera lenta, vai ter close nas expressões, vai ter música de gelar a espinha. o chato é que o tiro sai pela culatra e o recurso, usado descomedidamente, perde a eficácia e deixa o conteúdo entediante. a mesma coisa com a reviravolta: ela chega, mas com tanta pompa e firula que o impacto é praticamente nulo.

seria injusto, contudo, ignorar a performance de james mcavoy. responsável por dar conta de tantos papéis, ele alterna com tranquilidade entre uma e outra identidade usando, em alguns momentos, apenas o olhar. mais que isso, ele mantém a atmosfera tensa mesmo quando a história já degringolou – clima quebrado por suas atuações mais caricatas, que acabam arrancando risos da plateia.

ainda há alguns pontos bem graves que podemos refletir ao pensar no discurso do filme. o primeiro é a perpetuação do retrato de quem sofre desordens mentais como uma ameaça. embora todos os esforços da classe médica em desconstruir essa associação (causa que carrie fischer lutou até sua morte), voltamos ao velho clichê do perigo representado por alguém com distúrbios psicológicos. e há também o lado mais nojento da obra: mesmo que o filme não economize na sexualização das meninas (com direito a referência a dança erótica e peças de roupa sistematicamente tomadas pelo vilão), a mensagem final de fragmentado, surpreendentemente, propõe justificar que a pedofilia fortalece o caráter da vítima. isso sim é assustador.

wol-véi-rine

logan (eua, 2017) ★★★☆☆

a saga de mutantes guerreiros é, por si só, um vasto terreno para explorar metáforas que se desdobram em camadas de histórias cheias de apelo e significado. desde que surgiu, a franquia de filmes dos x-men ajudou a moldar a estrutura narrativa dos super-heróis no cinema, com aventuras visualmente deslumbrantes embrulhando um contexto mais denso – o discurso deles, pode notar, alternava entre preconceito, exclusão, autoaceitação, empoderamento e… wolverine.

num mundo tão rico de personagens únicos, suas origens misteriosas e superpoderes raros, vale analisar por que apenas um ganhou destaque – e três filmes solo. wolverine encarna o arquétipo americano do herói moderno: solitário, lacônico, sombrio, marrento. aquele feito sob medida para andar em câmera lenta enquanto uma explosão destrói a paisagem ao fundo. mata o inimigo e faz uma piadinha. não se importa com ninguém. bebe sua bud no gargalo. conquista mulheres e faz uma piadinha. anda de moto. fuma charuto. cospe no chão e faz uma piadinha.

nos quadrinhos, wolverine caiu como uma luva no sonho de vida de todos aqueles nerds mirrados. adaptado pro cinema, ele ainda ganhou o carisma de hugh jackman. aí deu no que deu: o rambo do novo milênio agora tinha garras de adamantium. o que, claro, não representa nenhum problema. cada um tem o herói que quer. ruim mesmo é quando o roteiro precisa simular uma profundidade onde só tem beirada, aí transforma o filme no festival da fita crepe.

não que a galera não esforce! assim como o protagonista dá a logan, patrick stewart confere ao professor xavier uma dimensão nunca experimentada em qualquer título da saga. visivelmente mais velhos, ambos apresentam uma fadiga extrema, fruto de anos de lutas constantes, e uma certa comiseração mútua. quem rouba a cena, contudo, é a novata dafne keen. espécie de mini-rooney mara, ela encarna uma jovem mutante que não conhece o medo. a fotografia é conservadora, como nos clássicos, e o som também merece atenção: provavelmente, é o mais silencioso de todos os filmes dos x-men.

mas aí vem a festa da gambiarra. no esforço de aprofundar e trazer relevância ao personagem principal, o roteiro apela para nossa senhora soluções milagrosas, deixando várias pontas soltas. pensa bem: embora tenha enfrentado sozinha inúmeros capangas, por que laura, na companhia dos amigos, fugiu com medo de lutar contra o mesmo número de vilões depois? como aquela mulher conseguiu editar e locutar o vídeo no celular enquanto fugia com a menina? se não podia tomar todo o remédio verde, como logan faz isso e nada lhe acontece? e as coordenadas oriundas de uma revista em quadrinhos, alguém explica? além disso, numa realidade na qual supostamente já foi inventada a “cura” para o gene x (x-men: o confronto final), qual o sentido de matar crianças mutantes que não serviriam para lutar? melhor tirar seus poderes e vendê-las pra zara, não?

logan ainda esboça algumas analogias “sérias” para dar peso à história. além de forçar a barra para inserir um trecho de os brutos também amam, que é lembrado posteriormente num momento meio vergonha alheia, traz também um clone mais jovem do wolverine entre o séquito de inimigos. aquela coisa de enfrentar o passado, vencer você mesmo e parará… o que não condiz com a realidade, pois o personagem apenas se repete desde que foi apresentado, oscilando entre o desejo de seguir sozinho e o de proteger quem gosta. definitivamente, o arco dramático mais reto já visto em hollywood.

o primeiro homem

ate

spoi

até o último homem (eua, 2016) ★★★☆☆

quando se alistou no exército, desmond doss só queria cumprir seu dever patriótico. parecia o mais sensato a fazer, pensava consigo mesmo – ignorando o peso do social que, silenciosamente, tomava as rédeas da decisão. doss ainda não sabia, mas assinar aquela ficha mudaria radicalmente a sua visão de mundo. e de amor.

no quartel, ele se tornou um prato cheio para provocações. implicavam com seu jeito, seu sotaque, sem motivo. franzino, adventista fervoroso, temente a deus e, principalmente, aos próprios instintos, desmond doss era constantemente humilhado e espancado por se recusar a pegar em armas. sua munição, dizia, eram seus medicamentos e sua missão, salvar vidas. a birra prolongou-se para além do batalhão, porém, lá dentro, mexia principalmente com o soldado smitty, um dos mais valentes fuzileiros americanos.

havia algo diferente em doss, e o soldado sentia isso. ao contrário dos outros, smitty entendia que aquela postura orgulhosa estava mais próxima da bravura que da covardia. é preciso ter colhões para ser o que se é, mas de onde vinha tamanha coragem? ele se sentia inexplicavelmente atraído a tentar resolver esse mistério, mas repelido por cogitar a possibilidade. arriscava aproximações insuspeitas, buscava briga, cuspia desafetos. dormia fitando o sono de doss, cuja cama ficava a alguns metros – chegou a salvar a pele do magricela, impedindo que seus amigos o espancassem até a morte. mas por quê?

okinawa, 1945. de repente, a guerra não era apenas mais um substantivo vago. cada um com sua coragem, os soldados vencem sua primeira batalha no front. smitty destruindo cabeças, doss costurando feridas. a dimensão da vida encolhe, a da morte aumenta, estraçalha, devora. a noite cobre a superfície, todos se escondem. dividindo a mesma trincheira, os dois soldados se veem sozinhos no mundo. dois pontinhos de luz num imenso oceano de trevas. agora, não mais tão sozinhos. eles se conhecem, se abrem, se amam.

de manhã, os primeiros tiros trazem o batalhão de volta ao jogo. separados, os amantes seguem suas tarefas: matar e salvar. o inimigo aparece em número cada vez maior, brota do chão, materializa-se no ar. a quantidade de bombas dificulta mirar no alvo, caminhar até os feridos, mas não impede o pensamento de voltar à noite passada, revisitar o beijo, o toque, o gozo. sentir-se invencível. até que smitty é atingido no peito.

inconsolável, o médico soldado testemunha a vida de seu amor escorrer de suas mãos. os olhos de smitty, onde doss mais gostou de morar, tornam-se duas bolas verdes opacas, fixas para o nada. o coração de ambos está arruinado. é castigo, é punição, é sacrifício. o franzino doutor decifra a mensagem divina e, imediatamente, recolhe-se à sua insignificante existência. vai voltar pra bíblia, igreja, mulher, vida direita. vai voltar já. mas vai voltar sem saber que a bala que matou smitty veio da arma do ciumento capitão de seu quartel.

obra aberta

animais

spoi

animais noturnos (eua, 2016) ★★★★☆

uma obra é ao mesmo tempo o esboço do que pretendia ser e do que é de fato, ainda que os dois valores não coincidam. (umberto eco)

no segundo filme de tom ford, um casamento em ruínas é o contexto para apresentar susan morrow, uma bem sucedida marchand que, inesperadamente, recebe o novo livro de seu antigo amor. tem-se início, então, um intrincado delírio mental que se desdobra em três histórias diferentes com certas “conexões” entre si. embora pareçam narrativas independentes, este texto vai defender a teoria de que todas as tramas são, na realidade, variações de mesma origem: os sentimentos de culpa e frustração da protagonista.

a ideia toda é bem simples: dos três tempos em que o longa se desenrola, apenas um, o  presente, traz os fatos como são de verdade; os outros dois – livro e flashbacks – seriam reflexos do pensamento conturbado de susan. essa premissa faz toda a diferença porque, antes dela, vemos todas as narrativas com a mesma credulidade. entretanto, seguindo algumas pistas que o roteiro espalha, podemos concluir que, bem, estamos mais presos à visão da personagem principal do que imaginávamos.

a primeira (e mais óbvia) pista seria a profissão de susan. como dona de galeria, cabe a ela filtrar e classificar o que é arte ou não. esse crivo, por mais técnico que possa ser, tem um viés inerentemente subjetivo que é explorado em pelo menos dois momentos: em determinada cena, num jantar informal, quando um amigo elogia a nova exposição trazida pela protagonista, ouve dela que aquilo não passa de “um monte de bosta”. mais tarde, ela é profundamente impactada por um quadro escrito “vingança” enquanto sua assistente demonstra completa apatia. essas interpretações muito pessoais são fortes indícios de que a história do livro pode não ser exatamente o que estamos vendo. no plano “real”, reforçam que susan coloca grande parte de si na interpretação do que vê.

depois vem o complexo de vítima de susan. embora acuse os outros de covardia, ela é quem não consegue assumir a responsabilidade pelas suas escolhas. em sua concepção, o algoz é sempre o outro: a mãe conservadora, o ex sem ambição, o marido infiel. incapaz de agir por conta própria, ela espera que a mudança parta de fora pra dentro – a união que a livra da família, o homem charmoso que a tira da estagnação, o ex que finda sua crise conjugal. por isso não é de se estranhar que as vítimas do livro imaginadas por susan sejam também ruivas como ela, assim como o herói tenha a mesma cara do ex.

imersa em expectativa e arrependimento, ela costura a trama criada por edward às suas memórias e seu cotidiano (que a montagem do filme explora lindamente em rimas visuais). portanto, ao contrário de ter sua história inspirada para criar um romance, o mais provável é que susan adapte fragmentos do livro à sua vida atual, monótona e infeliz. e para deixar bem claro que a protagonista vê coisas onde não existem, o diretor incluiu uma cena de gosto duvidoso na qual um celular tem a tela quebrada.

por fim, se há alguma dúvida sobre as intenções de edward em oferecer o livro a susan, temos o desfecho do terceiro ato que mostra, de uma vez por todas, a importância dela na vida dele. presente de ex não pode ser coisa boa.

o valor do ingresso

10.000% é uma porcentagem que causa estranheza, mas, acredite, esse é o lucro dos cinemas em cima daquela pipoca fria que compramos. isso porque, segundo economistas, ela é adquirida por peso e vendida por volume – enquanto o quilo do milho a granel custa $ 2,70, a embalagem pequena de pipoca é encontrada por até quatro vezes mais. portanto não é errado afirmar que é a pipoca, e não grandes bilheterias, o que mantém essa indústria de pé. agora veja o que acontece quando você compra um ingresso de cinema de vinte reais.

cinema

vai descer, motorista

zumbi

invasão zumbi (coréia do sul, 2016) ★★★★☆

saturado por obras semelhantes, o mercado de filmes de zumbi depende cada vez mais da visão de fora para se renovar. títulos como o espanhol rec e o norueguês zumbis na neve injetaram, nos últimos anos, um sopro de vitalidade no gênero que frequentemente se mostra, bem, morto-vivo. agora é a vez da coréia do sul: invasão zumbi conta a história de um grupo de pessoas que, enquanto viaja para busan, descobre que o país enfrenta uma epidemia mortal e precisa lidar com infectados violentos dentro do mesmo trem. em cada estação, novas informações deixam a situação ainda mais tensa, já que ninguém está a salvo de se tornar um dos monstros.

como percebemos pela história, o longa não acrescenta nada revolucionário à indústria. o grande mérito do diretor yeon sang-ho foi enxergar o óbvio: a essa altura, ninguém mais tem medo de zumbi. com o foco na ação, e não no susto, o filme embala duas horas de tirar o fôlego, com sequências alternadas de adrenalina e respiro. e não cansa!

o temperinho sul-coreano é também um diferencial. os mortos-vivos de sang-ho se transformam em questão de segundos, contorcem-se de forma sobre-humana e não enxergam no escuro – o que deixa seus olhos assustadoramente brancos. além disso, são capazes de processos cognitivos de fazer inveja aos zumbis de romero. porém o mais importante é que eles são muito rápidos, e é esse ritmo frenético que dita o espírito do longa.

com tanto corre-corre, o que estraga a festa são as cenas forçadíssimas de emoção. na tentativa de dar mais densidade à história, o roteiro acrescenta duas xícaras de maisena. de apelo puxado e diálogos sofríveis, dignos de uma novela da record, o melodrama não convenceria nem mesmo um zumbi. pior: após abusar da fórmula do choro fácil, o desfecho perde força e a cena final deixa de ter o impacto que merecia.

ainda assim, invasão zumbi traz belas analogias e reflexões. logo na abertura, um boneco de trânsito faz os mesmos movimentos de um ser humano. mais tarde, ao destacar algumas relações, fica clara a mensagem de que a morte em vida acontece quando abandonamos nossos laços sociais. tornar-se um zumbi, nesse caso, é possível fora das telonas também. no filme, os personagens se deram conta dessa lacuna afetiva tarde demais. e você, está atento?