Marcado: autopsia

uma morta muito louca

a autópsia (reino unido/eua, 2017) ★★☆☆☆

numa pacata cidadezinha americana, um crime bárbaro choca a equipe de polícia: todos os moradores de uma casa surgem brutalmente assassinados. não bastasse, o corpo de uma jovem desconhecida é encontrado – limpo e intacto – no porão do imóvel. sem pistas, o xerife leva o estranho cadáver ao necrotério local, na esperança de que a autópsia o ajude a elucidar a tragédia. diante da urgência da situação, os legistas (pai e filho) começam imediatamente o trabalho, até que estranhos acontecimentos tumultuam o lugar.

é com essa premissa misteriosa que a autópsia engata um dos suspenses mais eficientes, ainda que simples, dos últimos tempos. ajudado pela entrega e boa química de seus atores (brian cox e emile hirsch), já de início ele explica satisfatoriamente a rotina do morgue e o conflito de gerações, pincelando até um certo drama pela perda recente de um ente querido. o jogo de mostra/esconde é bem construído e pontuado pelo de crença/ceticismo. o cenário naturalmente assustador do casarão antigo é bem explorado e a geografia do lugar se torna rapidamente familiar. outro acerto da produção é fazer com que os personagens registrem a operação em vídeo, o que permite que a investigação seja apresentada de forma didática. toda essa base bem construída, contudo, dura apenas até o fim do primeiro ato.

após criar um enredo sólido, o filme pega a banguela e desce ladeira abaixo. é só abrir jane doe (expressão em inglês para “maria ninguém”) que a atmosfera de mistério dá lugar a saídas previsíveis, sustos fáceis e terror gráfico. o diretor, andré ovredal, cria um colcha de retalhos de clichês que, se não botam a perder toda a trama, tampouco constroem algo a mais na obra. o resultado é uma grandiosa casa de paredes sem reboco.

a sopa de medinhos inclui rádio analógico sintonizando canção infantil do além, fantasmas nos reflexos, luzes que se apagam antes de revelar algo, árvores caídas impedindo a saída e assombrações pelo buraco da fechadura. assim, o drama construído com a perda familiar se evapora, o modus operandi dos eventos despiroca e o senso de espaço construído é jogado pras cucuias – cenas que poderiam ser o auge da claustrofobia, como aquela em que certos personagens ficam presos no elevador, são apenas… chatas.

a explicação para os acontecimentos é bem pensada, mas aparece na tela quase jogada, en passant, perdendo o impacto que merecia. a preguiça em desenvolver um roteiro melhor amarrado inclui, claro, elementos decisivos ao desfecho, como o corrimão solto da entrada, apresentados apenas quando convêm à história. por falar em final, é bom se preparar pra frustração: esta é mais uma das películas (cada vez mais comuns) que deixam pontas soltas a serem resolvidas nas sequências. um desrespeito à finada.