Marcado: cinema nacional

psicordélico

malasartes e o duelo com a morte (brasil, 2017) ★★☆☆☆

a figura nacional do anti-herói trapaceiro ganha roupagem de sotaque caipira cheia de efeitos especiais. na nova versão, depois de acumular uma grande dívida com o sujeito mais bravo da cidade, pedro malasartes vive à toa inventando formas fáceis e pouco honestas de pagar suas contas – e, de quebra, namorar a irmã de seu credor. tudo muda, porém, quando ele completa vinte e um anos e conhece seu padrinho: ninguém menos que a morte em pessoa (ou algo assim). cansada do fardo de ceifar vidas, a figura carrasca planeja se aposentar deixando como substituto o sobrinho mirrado. malandro como só ele, pedro aproveita os dons recebidos pelo padrinho e cria um jeito de enriquecer às custas da morte. mas por pouco tempo.

dirigido por paulo morelli, de cidade dos homens, malasartes tenta ocupar o vácuo que guel arraes deixou no cinema de cordel desde lisbela e o prisioneiro, em 2003. pena que a rima não casa, o verso repete e a xilo desbota. bem embalada e cheia de boas intenções, a película morre na praia junto as parcas, personagens que outrora cortavam os cordões da vida, mas tiveram a função roubada pela morte. completamente dispensáveis à história, as parcas só não ganham em desimportância para esculápio, o ajudante da morte que, em 108 minutos de filme, ajuda um total de zero coisas. pior: interpretado por um leandro hassum que aprendeu a atuar com fábio porchat, esculápio suscita mais ódio que próspero, o vilão da trama, credor de pedro malasartes.

interpretação, de fato, não é o forte do filme. as performances vão de preguiçosas (vera holtz e júlio andrade) a apagadas (jesuíta barbosa, que nem de longe repete o brilho de praia de futuro). isis valverde se esforça em atribuir credibilidade à sua áurea, mas a ausência de densidade transforma a personagem numa maria chorona. quem encontra caminho livre pra se destacar é augusto madeira e seu zé candinho. seguro ao encarnar o matuto tradicional, madeira concentra em si praticamente todos os momentos mais inspirados do longa – a cena em que ele revela seu nome completo é digna de woody allen.

recontar a história de malasartes (a primeira versão é de mazzaropi) é uma ideia bastante válida. numa época em que nossas maiores bilheterias são cópias emprestadas de hollywood ou do projac, trazer uma linguagem genuinamente brasileira vem como um respiro em boa hora. modernizar o conto, entretanto, revelou-se um recurso puramente estético. encher a tela de efeitos especiais, ainda que incríveis, não torna o filme mais relevante (talvez mais vendável). é preciso também atualizar o discurso: malandro que rouba de pobre, trai a mulher e se dá bem no final é algo que não devia ter espaço em 2017. e isso não tem efeito especial que mude.

o cinema brasileiro é machista?

loucas

loucas pra casar (brasil, 2014) ★★☆☆☆

imagine que você, uma profissional independente, rica e respeitada, descubra que seu noivo mantém um caso com outra – ou melhor (pior, nesse caso): uma não; ele esconde, na verdade, romance com duas outras mulheres. qualquer castigo seria pouco pra esse pilantra, concorda? surpreendentemente, não é isso o que acontece em loucas pra casar. as três envolvidas na traição passam a disputar o amor do marmanjo numa série de artimanhas para derrubar as rivais e ganhar o grande prêmio: uma passagem só de ida para o altar.

já reparou que o cinema nacional está cheio de longas assim? nas produções brasileiras, é comum que a mulher viva em função do homem, seja como objeto sexual, esposa zelosa e/ou dependente financeira. em loucas pra casar, é bastante emblemático o fato do noivo da protagonista ser também seu patrão. o domínio do falo apresenta-se, assim, em várias esferas, mantendo a personagem principal sempre como o significante do outro masculino – apenas portadora, nunca produtora de significado. ela apenas reage ao comportamento dele, original e isento.

da mesma forma, a película não apresenta um só personagem masculino alterado, inseguro ou mal educado. enquanto elas estão sempre à beira do surto, eles se mostram calmos, compreensivos e superiores. talvez porque lá, assim como na sociedade, as mulheres tentem loucamente se enquadrar numa imagem feminina projetada… pelos homens. o que vemos é uma procura sem limite pra entrar no padrão do que eles gostariam que elas fossem. em loucas pra casar, elas chegam a se estapear pelo homem desejado, ilustrando aquele chavão machista de que mulher não é amiga de outra.

acontece que esses estereótipos impostos à mulher, embora disfarçados, são uma forma cruel de opressão. além de reduzi-la em objeto, eles a anulam enquanto sujeito e reprimem seu papel social. tudo isso, claro, ao mesmo tempo em que criam a ideia de uma mulher ideal, passiva, consumista, inexpressiva, reacionária – e mais exposto, em minha opinião, no campeão de bilheteria e aí, comeu?.

mas a culpa do machismo não é apenas do cinema. embora possamos afirmar que nosso discurso patriarcal seja resquício da pornochanchada e que nossas influências sejam mais hollywoodianas que européias, é importante ressaltar que a nossa sétima arte é, a grosso modo, herdeira do que passa na telinha. nossos grandes astros, diretores, produtoras têm origem nas novelas, ao contrário do que acontece lá fora, onde o cinema é a mola-motora. a televisão brasileira é a grande mídia nacional. então estamos falando de um veículo em que sua maior rede exibiu o primeiro beijo gay há apenas um ano. não é de se espantar que nossa produção seja tão atrasada. enquanto nosso cinema não encontrar uma identidade própria, continuaremos acompanhando a continuação da novela das nove na sala escura – com direito a casamento no final da história.