Marcado: cinema

tompero de cinema

preparar um prato é como contar uma história. cada ingrediente é personagem de um roteiro que termina, se bem executado, em final feliz. pensando nessa narrativa culinária, o artista visual david ma produziu quatro curtas de receitas inspirados em grandes diretores. com um minuto cada, os vídeos trazem um menu diverso: s’mores ao estilo wes anderson, espaguete à taratino, waffles explodidos por michael bay e panquecas voadoras de alfonso cuarón. você tem fome de quê?

psicordélico

malasartes e o duelo com a morte (brasil, 2017) ★★☆☆☆

a figura nacional do anti-herói trapaceiro ganha roupagem de sotaque caipira cheia de efeitos especiais. na nova versão, depois de acumular uma grande dívida com o sujeito mais bravo da cidade, pedro malasartes vive à toa inventando formas fáceis e pouco honestas de pagar suas contas – e, de quebra, namorar a irmã de seu credor. tudo muda, porém, quando ele completa vinte e um anos e conhece seu padrinho: ninguém menos que a morte em pessoa (ou algo assim). cansada do fardo de ceifar vidas, a figura carrasca planeja se aposentar deixando como substituto o sobrinho mirrado. malandro como só ele, pedro aproveita os dons recebidos pelo padrinho e cria um jeito de enriquecer às custas da morte. mas por pouco tempo.

dirigido por paulo morelli, de cidade dos homens, malasartes tenta ocupar o vácuo que guel arraes deixou no cinema de cordel desde lisbela e o prisioneiro, em 2003. pena que a rima não casa, o verso repete e a xilo desbota. bem embalada e cheia de boas intenções, a película morre na praia junto as parcas, personagens que outrora cortavam os cordões da vida, mas tiveram a função roubada pela morte. completamente dispensáveis à história, as parcas só não ganham em desimportância para esculápio, o ajudante da morte que, em 108 minutos de filme, ajuda um total de zero coisas. pior: interpretado por um leandro hassum que aprendeu a atuar com fábio porchat, esculápio suscita mais ódio que próspero, o vilão da trama, credor de pedro malasartes.

interpretação, de fato, não é o forte do filme. as performances vão de preguiçosas (vera holtz e júlio andrade) a apagadas (jesuíta barbosa, que nem de longe repete o brilho de praia de futuro). isis valverde se esforça em atribuir credibilidade à sua áurea, mas a ausência de densidade transforma a personagem numa maria chorona. quem encontra caminho livre pra se destacar é augusto madeira e seu zé candinho. seguro ao encarnar o matuto tradicional, madeira concentra em si praticamente todos os momentos mais inspirados do longa – a cena em que ele revela seu nome completo é digna de woody allen.

recontar a história de malasartes (a primeira versão é de mazzaropi) é uma ideia bastante válida. numa época em que nossas maiores bilheterias são cópias emprestadas de hollywood ou do projac, trazer uma linguagem genuinamente brasileira vem como um respiro em boa hora. modernizar o conto, entretanto, revelou-se um recurso puramente estético. encher a tela de efeitos especiais, ainda que incríveis, não torna o filme mais relevante (talvez mais vendável). é preciso também atualizar o discurso: malandro que rouba de pobre, trai a mulher e se dá bem no final é algo que não devia ter espaço em 2017. e isso não tem efeito especial que mude.

uma morta muito louca

a autópsia (reino unido/eua, 2017) ★★☆☆☆

numa pacata cidadezinha americana, um crime bárbaro choca a equipe de polícia: todos os moradores de uma casa surgem brutalmente assassinados. não bastasse, o corpo de uma jovem desconhecida é encontrado – limpo e intacto – no porão do imóvel. sem pistas, o xerife leva o estranho cadáver ao necrotério local, na esperança de que a autópsia o ajude a elucidar a tragédia. diante da urgência da situação, os legistas (pai e filho) começam imediatamente o trabalho, até que estranhos acontecimentos tumultuam o lugar.

é com essa premissa misteriosa que a autópsia engata um dos suspenses mais eficientes, ainda que simples, dos últimos tempos. ajudado pela entrega e boa química de seus atores (brian cox e emile hirsch), já de início ele explica satisfatoriamente a rotina do morgue e o conflito de gerações, pincelando até um certo drama pela perda recente de um ente querido. o jogo de mostra/esconde é bem construído e pontuado pelo de crença/ceticismo. o cenário naturalmente assustador do casarão antigo é bem explorado e a geografia do lugar se torna rapidamente familiar. outro acerto da produção é fazer com que os personagens registrem a operação em vídeo, o que permite que a investigação seja apresentada de forma didática. toda essa base bem construída, contudo, dura apenas até o fim do primeiro ato.

após criar um enredo sólido, o filme pega a banguela e desce ladeira abaixo. é só abrir jane doe (expressão em inglês para “maria ninguém”) que a atmosfera de mistério dá lugar a saídas previsíveis, sustos fáceis e terror gráfico. o diretor, andré ovredal, cria um colcha de retalhos de clichês que, se não botam a perder toda a trama, tampouco constroem algo a mais na obra. o resultado é uma grandiosa casa de paredes sem reboco.

a sopa de medinhos inclui rádio analógico sintonizando canção infantil do além, fantasmas nos reflexos, luzes que se apagam antes de revelar algo, árvores caídas impedindo a saída e assombrações pelo buraco da fechadura. assim, o drama construído com a perda familiar se evapora, o modus operandi dos eventos despiroca e o senso de espaço construído é jogado pras cucuias – cenas que poderiam ser o auge da claustrofobia, como aquela em que certos personagens ficam presos no elevador, são apenas… chatas.

a explicação para os acontecimentos é bem pensada, mas aparece na tela quase jogada, en passant, perdendo o impacto que merecia. a preguiça em desenvolver um roteiro melhor amarrado inclui, claro, elementos decisivos ao desfecho, como o corrimão solto da entrada, apresentados apenas quando convêm à história. por falar em final, é bom se preparar pra frustração: esta é mais uma das películas (cada vez mais comuns) que deixam pontas soltas a serem resolvidas nas sequências. um desrespeito à finada.

cinema em casa

o ilustrador e arquiteto italiano federico babina explora, em construções hipotéticas, a expressão artística inerente na arquitetura. em suas séries de pôsteres, ele já transformou canções, músicos e até pintores em edifícios imaginários. archidirector é sua homenagem aos maiores realizadores da sétima arte. nela, babina elenca vinte e sete grandes cineastas em plantas surreais e impressionantes. alguns exemplos:

veja mais federico babina aqui.

pedaço de mim

fragmentado (eua, 2017) ★★☆☆☆

shyamalan consegue ser o inverso proporcional de stephen king. se o escritor consegue transformar histórias aparentemente tolas em suspenses competentes, o diretor segue na contra-mão: reduzidos a um tuíte, os insights do indiano são geniais; esticados num filme de duas horas, haja saco.

fragmentado é um desses casos típicos. a trama se desenrola a partir de um sujeito que, vítima de transtorno, abriga 23 personalidades distintas dentro de si. como se não fosse pouca coisa, algumas dessas identidades conversam entre si, conspiram e armam planos para vir à luz. pior: ameaçam a vida de pessoas inocentes em nome de uma suposta superioridade psicológica. nenhuma dessas personas, porém, contava com um monstro maior que as duas horas de filme: o ego do diretor.

catapultado ao olimpo com o sexto sentido, shyamalan abraçou com as pernas a ideia de que seria o hitchcock dos novos tempos. mais que um nome, ele se tornou uma grife. a reviravolta final se tornou sua marca (nem sempre bem empregada), e sua direção sempre carregou nas cenas um “ar de mistério” (nem sempre bem conduzido). os cartazes de seus filmes sequer creditavam os atores, a única informação necessária era o “dirigido por”. até mesmo suas pequenas participações na história, homenagem ao mestre do suspense, tornaram-se grandes demais – em a dama na água, ele interpreta um dos personagens de maior destaque. cego pelo deslumbre, shyamalan viu sua reputação descer pelo ralo. virou piada em hollywood.

é por isso que fragmentado não apenas bebe, como toma banho e injeta na veia da fonte mais pura de sua origem. o retorno de shyamalan deixa claro que ele veio disposto a tomar de volta a faixa perdida de miss medinho. cada cena do novo longa tem o claro propósito de lembrar que há um grande diretor de suspense por trás de tudo. não importa se a personagem está sendo perseguida ou apenas limpando o ouvido: vai ter câmera lenta, vai ter close nas expressões, vai ter música de gelar a espinha. o chato é que o tiro sai pela culatra e o recurso, usado descomedidamente, perde a eficácia e deixa o conteúdo entediante. a mesma coisa com a reviravolta: ela chega, mas com tanta pompa e firula que o impacto é praticamente nulo.

seria injusto, contudo, ignorar a performance de james mcavoy. responsável por dar conta de tantos papéis, ele alterna com tranquilidade entre uma e outra identidade usando, em alguns momentos, apenas o olhar. mais que isso, ele mantém a atmosfera tensa mesmo quando a história já degringolou – clima quebrado por suas atuações mais caricatas, que acabam arrancando risos da plateia.

ainda há alguns pontos bem graves que podemos refletir ao pensar no discurso do filme. o primeiro é a perpetuação do retrato de quem sofre desordens mentais como uma ameaça. embora todos os esforços da classe médica em desconstruir essa associação (causa que carrie fischer lutou até sua morte), voltamos ao velho clichê do perigo representado por alguém com distúrbios psicológicos. e há também o lado mais nojento da obra: mesmo que o filme não economize na sexualização das meninas (com direito a referência a dança erótica e peças de roupa sistematicamente tomadas pelo vilão), a mensagem final de fragmentado, surpreendentemente, propõe justificar que a pedofilia fortalece o caráter da vítima. isso sim é assustador.