ela é o diabo

hereditário (eua, 2018) ★★★★☆

família é a primeira referência de qualquer um: são os laços de sangue (ou a ausência deles) que desenham a base do que consideramos natural, e também de onde brotam os assuntos das nossas sessões de terapia. na estreia do diretor ari aster, para além da criação e da genética, a herança familiar se mostra um fardo amargo de ser reconhecido – e doloroso de ser vivenciado. hereditário conta a história de annie, uma artista cuja ascendência é pontuada por silêncios, distâncias e transtornos mentais. ao lidar com a morte da mãe, ela precisa encarar também seus próprios demônios antes que sejam passados adiante à sua prole. mas talvez seja tarde demais.

com precisão cirúrgica, o filme manipula o enredo tal qual estratégia de guerra. ajudados pela extraordinária fotografia, cenários e maquetes se confundem, deixando atores deslocados no espaço, que ora parece grande, ora próximo, ora claustrofóbico, mas sempre dominante. os personagens circulam perdidos como ratos de laboratório e, como marionetes que ganham vida, revelam, a cada aproximação, suas próprias fissuras e complexos – de origem real, psicológica ou, talvez, sobrenatural. dessa forma, camadas e mais camadas vão sendo construídas na trama antes que o verdadeiro terror aconteça.

espíritos e demônios têm se tornado cada vez mais comuns nas produções americanas. já são o tema de maior incidência nos filmes de terror, batendo psicopatas e serial killers e figurando quatro vezes mais que antagonistas vampiros ou zumbis. mas se nos anos oitenta nos causava arrepio a imagem do pai possuído de o iluminado, ou do jovem endemoniado de horror em amityville, hoje a ameaça se manifesta, quase sempre, na mulher. salvo os títulos em que o “canal” usado pelo além é uma criança, o elo mais vulnerável da história costuma ser feminino – pior: em contraponto a uma figura masculina protetora, calma e dotada de razão.

é sintomático e preocupante. se as mulheres têm conquistado cada vez mais espaço na sociedade, ainda falta um bocado para se firmar entre grandes realizadores. a produção hollywoodiana reforça o chavão caduto de que, quando o bicho pega, são os marmanjos que mantêm, plácidos, o pragmatismo necessário pra lidar com os problemas. não que isso seja garantia de sobrevivência: às vezes é esse ceticismo, e a expectativa feminina depositada nele, que leva os personagens a óbito. não obstante, quando são as heroínas da história, enfrentando bravamente toda sorte de perigos sobre-humanos, elas fatalmente acabam sendo também parte da causa (quando não toda) dos infortúnios da trama.

“reflexo da sociedade”, a produção cultural não está isenta de responsabilidade e sua representação não deve indicar anuência. há séculos, líderes, lendas e religiões rebaixam as mulheres, atribuindo culpas que as acompanham por toda a vida. o cinema não precisa reproduzir esse padrão – como movimento artístico, um de seus papeis é questionar o status quo. porém a indústria é forte, e quem a comanda ainda é o homem. a mudança é necessária, esperada, urgente. filmes são obras poderosas, atravessam décadas, influenciam gerações inteiras, marcam vidas. o tempo urge, mas está a nosso favor. o machismo, felizmente, não é hereditário.

domingo maior

jogador nº 1 (eua, 2018) ★★☆☆☆

aquelas matérias do fantástico explicando o meme da moda acabaram de ganhar uma versão cinematográfica de 140 minutos. o novo filme do spielberg é uma aventura do barulho, num mundo virtual pra lá de pirado, contada para senhorinhas de setenta anos que assistem ao jornal nacional numa tv de tubo, bombril na antena, ronco e pantufa, lá em cotia. tudo é ex-pli-ca-di-nho pra que ninguém se perca no emaranhado de referências. “mas a senhora viu que o moço ali desvendou o mistério? não? peraí, que ele vai ler o bilhete em voz alta pra deixar mais claro”. duas horas e vinte minutos de uma lenga-lenga que black mirror entrega em meia hora.

a trama empolga: num mundo assolado pela pobreza, as pessoas encontram refúgio numa realidade alternativa. na rede chamada oasis, qualquer um pode ser o que sempre sonhou. prestes a morrer, o criador desse mundo mágico deixa três enigmas que darão a quem desvendá-los poder absoluto sobre aquele universo. até aí, beleza. a execução da história, contudo, torna explícito que quem a adaptou nunca pegou num console antes – ou então mandou pras cucuias qualquer aprendizado de user experience que os games proporcionaram. por exemplo:

  • os trajes: as pessoas ainda dependem de óculos enormes pra viver uma realidade virtual. pior: é preciso colocar todo um equipamento com roupas, sensores e fios para se desligar do mundo de verdade. preguiça! se eu tiver que colocar todo esse aparato pra jogar colheita feliz, adeus! ainda mais em 2045.
  • os gráficos: no oasis, a qualidade das imagens é similar ao que víamos no saudoso ps2. décadas e mais décadas desenvolvendo uma tecnologia que substituiria a realidade e o resultado é um avatar que parece a eva byte. só lembrando, o filme se passa em 2045.
  • os deslocamentos: uma das grandes vantagens da internet e dos games é clicar em algo, e – pronto! – estar lá. em jogador nº 1, você precisa literalmente caminhar (com seus pezinhos do mundo real) pra chegar a qualquer lugar. qual a vantagem de jogar algo assim? boa pergunta. inclusive: 2045.

ainda assim, a película impressiona pela concepção visual de uma comunidade carente do futuro e pelo remix que faz de uma obra-prima do kubrick. de resto, muita autorreferência e nenhuma contribuição à filmografia de seu diretor. tudo sem nexo, como os crimes transmitidos pro mundo todo sem interrupção da polícia, a maior empresa do mundo que espia as ruas mas não tem circuito interno de vigilância e a guerreira que lidera uma resistência mas sofre melindres por um sinal de nascença. só faltou o link ao vivo com o márcio canuto.

o jovem segundo a dc

liga da justiça (eua, 2017) ★★★☆☆

no universo dos super-heróis, poucas figuras representam o adolescente de maneira tão sensível quanto peter parker. criado por stan lee, o garoto é a síntese daquela delicada equação de entusiasmo e insegurança que todos passamos – ou esticamos – pela vida. em suas histórias, as pressões, descobertas e paranoias juvenis andam ao lado de aventuras surpreendentes. além de resolver as agruras de sua super-identidade, parker precisa lidar com os conflitos de sua nova condição, o tal triângulo das bermudas entre a infância e a fase adulta. não por acaso, na adaptação de sam raimi pro cinema, os poderes recém-adquiridos, para além de apresentar o personagem, expõem também sua puberdade latente. na versão recente, o homem-aranha está menos contemplativo e mais debochado, porém sua aura frágil e bagunçada permanece intacta, típica de quem deseja, com a mesma intensidade, salvar o mundo e cinco minutos a mais de sono.

numa narrativa fantástica, povoar o panteão de grandes heróis com personagens franzinos faz todo sentido. mais que gerar empatia com o target, diversificando tipos para identificação, pequenos salvadores também funcionam como alívio cômico, amaciando a tensão causada por lutas e mortes inevitáveis, e decodificadores da trama, questionando a ação no decorrer da história para explicar à audiência o que acontece na tela. do ponto de vista da indústria, jovens astros são mão de obra fácil e prestativa – sem salários astronômicos ou deslumbres de divas. já no aspecto cultural, o foco nos mais novos é impositivo: a cultura de massa, afinal, persegue, espelha e enaltece a juventude (alô, morrin!).

por tudo isso, é frustrante acompanhar um dos maiores nomes em cultura jovem do mundo, a dc comics, perder a mão ao retratar a “sua versão de peter parker”. em liga da justiça, barry allen é apresentado como um jovem delinquente que acredita na inocência de seu pai, condenado pelo assassinato da esposa. o peso dramático, contudo, acaba aí. ao ser escalado para a turma dos heróis, ainda nos primeiros minutos do longa, barry se converte numa metralhadora humana de gracejos. em todas as cenas do flash, seu alter ego poderoso, a piadinha é certa – e o constrangimento, também. não só pela atuação forçada de ezra miller, mas, principalmente, pelo tom jocoso que destoa da “embalagem hbo” que veste os títulos da dc. essa impressão gera incômodo e desconforto. parece que tem alguma ponta solta, a conta não fecha, as partes não se encaixam. de tanto insistir no caricato, o reforço engraçado logo azeda e transforma o personagem, espécie de universitário cheio de energia, num bobo da corte desesperado por atenção.

a situação degringola de um jeito que chega a colocar a própria construção da obra em risco. o tom sombrio perde a credibilidade à medida que o flash vai se abobalhando. a gravidade das escolhas pode ser medida em duas cenas específicas: quando ele é atingido pelo vilão, lobo da estepe, e na hora de salvar refugiados de uma área de risco. ambos os momentos geram, acredite, gargalhadas nas pessoas – não por apresentarem um bom repertório de anedotas (na verdade, são partes tensas e até trágicas), mas porque o público passou a associar o herói ao riso fácil. a questão, entretanto, segue aberta: qual, ou quem, de fato, é o motivo da piada ali?

numa saga com tantos protagonistas, é compreensível a dificuldade em desenvolver de pronto um novo personagem cheio de camadas e motivações. complicado talvez, impossível nunca: basta olhar, no mesmo filme, para o ciborgue. quase tão jovem quanto o flash, ele se vale do mistério para simular certa profundidade dramática. não se trata, claro, de um hamlet reinventado, mas o roteiro é respeitoso e cumpre seu papel de mostrar e instigar, um território onde barry allen apenas tropeça. ao retratar o caçula dos heróis de forma parva e sonsa, a dc comics deixa escapar também o jeito que vê os adolescentes, uma das maiores fatias do seu público – nada além de piada.

bonecas russas

a noiva (rússia, 2017) ★★☆☆☆

em março deste ano, vladimir putin surpreendeu o mundo com um discurso que, em suma, defendia que “as mulheres precisam do respaldo do homem” – isso no dia internacional delas. alguns meses antes, deputados russos aprovaram projeto de lei que descriminalizava a violência doméstica (ainda que dados apontem que, por lá, a cada 40 minutos, uma mulher seja assassinada por parentes ou parceiro). em todo o país, a legislação ainda proíbe as mulheres de exercerem mais de 450 tipos de emprego. se, no mundo todo, a igualdade de gênero ainda é um sonho a ser perseguido, na rússia ela sequer pode ser vislumbrada – e ter esse contexto em mente é fundamental para entender a noiva.

ambientado numa época em que o domostroy ainda era regra (o código de conduta russo, que vigorou até a revolução de 1917, defendia, entre outras coisas, que “a mulher que é boa, trabalhadora e silenciosa é como uma coroa para o seu marido”), o filme tem início tenso: na tentativa de registrar no papel a imagem de sua noiva morta (que insiste em não ficar parada), um fotógrafo acaba desencadeando uma maldição que acompanhará sua família por várias gerações. o ritual macabro é justificado pela lenda de que, naquele tempo, acreditava-se que o negativo da foto guardaria a alma de quem faleceu. a partir daí, a história se desloca para o presente e perde grande parte do seu elemento trágico, mantendo, contudo, sua carga de significados.

como nas melhores obras de terror, o título usa a metáfora para comentar sobre uma realidade que já é apavorante o suficiente, a união como destino imposto a moças – não é à toa que uma das cenas mais assustadoras envolve exatamente o “enlace matrimonial” forçado. a trama também segue ancorada nos preparativos de uma festa de casamento que vai se revelando, a cada minuto, uma cerimônia de sacrifício. se por um lado nos causa revolta a submissão com que a protagonista parece encarar todas as situações, por outro nos frustra perceber que ela não encontra apoio em qualquer pessoa próxima, nem mesmo entre as mulheres que já passaram por tudo aquilo. a grande vilã da história também reforça o pesadelo (e, muitas vezes, a sina) de qualquer jovem russa: uma noiva amargurada, austera, calada, que se esconde entre as paredes da casa e exige a castidade de suas meninas. é interessante notar como o design de produção combina com a fotografia para fazer o discurso soar atrasado – todo o cenário e a caracterização dos personagens não diferem muito entre as épocas, a não ser por um filtro envelhecido que evidencia quando estamos diante de um flashback. uma analogia que revela que nada, afinal, mudou muito ali.

o desenvolvimento dos personagens é curioso. assim como na narrativa cristã, as mulheres do filme são praticamente extremos opostos: a santa devota ou a pecadora da vida. já os homens seriam o intermédio: sem qualquer traço de personalidade, pairam como amálgamas das contradições de um patriarcado que, embora latente, não encontra sua razão de ser. infelizmente, as interpretações não podem ser avaliadas porque as cópias de a noiva distribuídas no brasil são dubladas em inglês. isso estraga grande parte do clima, já que elimina o som original ambiente e a sincronia dos movimentos labiais. a sensação é a de que os áudios foram todos gravados em estúdio, derrubando o universo sonoro construído para a narrativa (é frustrante ver cenas, como uma de perseguição na floresta, sem qualquer barulho de passos, de vento, de mosquito).

por mais que tente lembrar (ou seja vendido como) um terror hollywoodiano, a noiva apenas expõe o quanto a sociedade russa é diferente da ocidental. se estamos engatinhando nas questões de direitos humanos, por lá elas ainda estão em concepção. assim como cadáveres com pálpebras pintadas para simular olhos abertos, o registro soviético que nos chega é grosseiramente falsificado. como se preservados por um negativo antigo, valores arcaicos permanecem vivos e perigosos – e precisam ser destruídos. o quadro é cruel e a noiva é, na verdade, a vítima.

terapia de choque

chocante (brasil, 2017) ★★★☆☆

sabe quando você acorda de ressaca, lava o rosto, coloca umas roupas estranhas e vai trabalhar? os anos noventa foram mais ou menos isso. depois da euforia da década anterior, o povo tomou um engov e fingiu que tava tudo bem – mas se o planeta estava grogue, imagina o brasil. era época de usar (e esgotar) a fórmula das boybands na carona do sucesso mundial dos new kids on the block. em chocante, um desses grupos resolve, vinte anos depois, voltar aos palcos para reviver seus dias de one-hit wonder.

com uma abertura surpreendente, de timing cirúrgico, o filme traz um primeiro ato inspirado e refrescante. a apresentação hilária dos personagens dá ritmo à história, assim como as insistentes referências a uma determinada morte empurram o humor até o seu limite. embora quase todo o conjunto esteja afiado, quem se destaca é a fã inveterada da banda, interpretada por débora lamm. histérica e otimista ao extremo, ela cospe energia e palavras erradas, tornando sua quézia mais carismática até mesmo que a criança do elenco (klara castanho).

mas aí vem o flop: no segundo ato, a impressão é que aquilo tudo saiu do controle. a película afunda em dramas familiares que não se resolvem e figuras que não acrescentam ao enredo. as piadas vão ficando cada vez mais raras, tontas e repetidas. o que salva esse pandemônio é o improviso de marcus majella, que transforma seus devaneios no espelho em pequenas e irresistíveis esquetes. pena que isso logo se torne – também – enfadonho ao requentar pela terceira vez o mesmo artifício para fazer graça. o desfecho singelo e abrupto, porém, ajuda a recuperar um bocado da fé perdida em chocante.

o longa é ainda um deleite estético: tem produção de época caprichada, trilha sonora chiclete e efeitos especiais sutis. embora a trama reforce alguns estereótipos (a mulher que enche o saco do marido, o gay pintoso e enrustido etc), o roteiro pega bem leve-leve nas piadas escrotas – o que é bastante singular vindo de um título com bruno mazzeo entre os realizadores. parece que alguém aqui está virando hominho. o resultado dessa ousadia pode não ser chocante, mas é, no mínimo, interessante.

tompero de cinema

preparar um prato é como contar uma história. cada ingrediente é personagem de um roteiro que termina, se bem executado, em final feliz. pensando nessa narrativa culinária, o artista visual david ma produziu quatro curtas de receitas inspirados em grandes diretores. com um minuto cada, os vídeos trazem um menu diverso: s’mores ao estilo wes anderson, espaguete à taratino, waffles explodidos por michael bay e panquecas voadoras de alfonso cuarón. você tem fome de quê?